domingo, 19 de junho de 2011

Poema do Amor Humano

Como em tudo competimos
não nos damos conta que no Amor
não cabe competição.

Impeçam as possíveis guerras
santificadas, pois no Amor não há
mortos nem feridos.

Mesmo que haja dilacerações
gangrenas e a falência múltipla dos sentidos
no amor nada disso se faz ritmo.

no Amor a boca é para sugar
a palavra bem-dizer, a pele pra arrepiar
e os olhos para não ver.

Como a erva que vinga no asfalto
inalcançável aos apressados retirantes
o Amor permanecerá, sim permanecerá!

Desconhece-o os que por ele se comunicam, fazendo-lhe
de recurso para outro atributo. Escondido esperando ser
achado, desprovido da agonia aparente.

O Amor da cor a qualquer gente
faz da saliva cantiga de pássaro extinto,
antes mesmo que a morte existisse.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Serenidade

Nada muito complicado
simples assim mesmo como
tomar café fresco numa manhã fria.

Como não desmantelar os sentidos
ao golpe ferino da feminilidade plural?

E são gestos, risos, um punhado
de cores em sua força verdadeira.

Qual a forma do Belo e pra que te serve saber tal coisa?

Beleza é estado gracioso
que se mantem longe dos ponteiros,
rebentando tudo e não há quem o suporte.

Essa inquietação incompreendida
é teu jeito de se dispor dos percalços para correr
Está chovendo tanto e só a poesia
tem a coragem de te seguir.

Tua imagem chega ante o mar
(te imagino beira-mar, catando cristais de sal, serenamente.)
E tem chovido tanto nos meus versos ultimamente
sem mistério ou coisa semelhante

O mundo todo é noite é mar é chuva são teus olhos sorrindo.

Nilson Marques Jr.

sábado, 4 de junho de 2011

Poema de Braços Abertos

Esta perto a minha ida
se estiveres lá não dês
com a mão acenos.

Deixes que me vá, no meu silêncio, 
fazendo parte disso tudo que há.
Só quando estiveres pequena, - sorria!

Teus dentes me trarão a certa
esperança de dois corpos duas almas: um desejo!

Porei instintivamente a cabeça
para dentro e fecharei os olhos
na mansidão de uma boa lembrança

e me enganarei por anos
pensando que tu não te esqueceras de mim.

Alguém desconhecido estará ao teu lado
não entendendo a nós, nem sabendo de quem 
te despedes jamais nos apagará

e comentando a outros estaremos
perpétuos, estranhamente sem fim.

Nilson Marques Jr
                           Salvador, 28/03/09 a  06/04/2009

O avesso do avesso

Para que lhe serve a pressa em ser amado?
O que te cabe como bicho, feito homem em voz e pensamento é amar.
Ser amado é improvável quase descabido como imaginar o sol no poente,
acabrunhado, a aquecer corpos. Dentro do ser te é imputado a obstinação de amar.

Para se amar não precisa muita coisa, um verso de amor
a lembrança da moça nua a olhar pela janela, retinas claras que riscam o dia,
um desencontro, aquele amargo na garganta pela falta da palavra,
a ausência da voz que ainda se pode ouvir...

Retenha sobre os tempos ponteiros certeiros, apontando a caravana
que parte pronta a tomar lugares que ninguém conhece.
Aprenda a ouvir a própria voz, alcance os ouvidos dos surdos
reconheça sua inegável paralisia.

É só um punhado de esperança para se viver
para quem parte e para quem nunca irá, é só
um punhado de esperança banhada em lágrima
e acredite, após acordar, que o sonho é mais real que a parede que te solta.

Haviam estórias de avós se alinhando ao silêncio da noite
Lobisomens a espreitar meninos pagãos, Mãe do Mato retorcendo juízo de caçador
e olhos de ainda crentes acompanhando a voz estremecida da boca velha desenhar
gente tão verdadeiras que nunca terão fim.

Ela não tinha pressa, minha voinha preta se balançando em sua cadeira frente a casa
onde até os vaga-lumes pousam para aprender, fala de princesa no sertão,
desafia cangaceiro e a volante, a voz tremida e cuspida com dificuldade
untou-se a alma dos meninos e nunca mais se foi.

Eu direi em minha vivência: Meus avós souberam amar, mas estou mentindo.
Eles não sabiam o que era isso, nem meus pais e a credito que meus filhos
verão o pai, fora da poesia, e pensaram: Pobre homem que não soube amar
e nesse instante, assim como meus avós, semelhante aos meus pais, eu serei amado.

Mas ainda consigo ver, entre a secura cinza da caatinga
e o balido distante no pescoço do boi morto
uma flor vigorosa surgir sobre espinhos da Coroa de Frade,
e do Mandacaru o vermelho do fruto é boca da mulher que me amou. Silencio, estou completo.

Nilson Marques Jr.