sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Aprendiz

Sou o aprendiz de tudo o que ensino.
Meu conhecimento é parte, não totalidade.
Sou um aprendiz de ser.

Se estou entre homens e estou no silêncio de possibilidades
atarracadas a tantas nomeclaturas e planilhas e avanços
e são tantas coisas juntas

eu fico rente a abelhas desapercebidas
entre arranha-céus que não nos dizem nada
além do concreto sujo. Já não me preocupo

em entender ou ser aio, pudesse o meu verso
não ser verso, nem arte, e assim ter o peso da comunicação
dos avós ou o cheiro de qualquer infância

seria o meu conhecimento bem sucedido, mínimo
que fosse, o seria pleno. Mas a existência requer
medo, aí então compreendo minha luzente

insignificância. Noto eu, que jamais fui coisa alguma
exceto desejo. Firme. Dentro do que comungo.

Aprendo como se nada soubesse
estando sem ocupar espaço algum
existindo em momento tão curto quanto

qualquer conhecimento
para dentro do infinito:
Sepultura.

Nilson Marques Jr.

Poema do Amor constante

Te amo, no embaralhar de línguas,
neste silencio que as palavras promovem,
eis nele o amor.

Te amo nesta ausencia de perspectiva, como
um clamor ao Sagrado. Um perdão esperado...
E pouco a pouco sílabas e vogais e números vão

lutando, corpo a corpo, sobre o vão da imaginação
em que o desejo publica. Fome aos famintos, sem
miséria alguma, boca e saliva e revolta em desejo.

O cheiro da falta, a sensibilidade da saudade
o nome impresso em ponteiros
e este silvo dentro de cada palavra sem sentido.

Eu te amo. Contínuo. Amo
Haveria um outro verso,
mas essa chuva, e essa luz adiante
e esse arrepio em si mesmo se bastam.

Nilson Marques Jr.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Poema em folha branco & preto

A minha inspiração é secreta de tão aberta que é
Não preciso de muito brilho para compreender as cores
Nem de tantas pernas para saber o caminho

Parto do princípio das vozes dos cheiros e dos anos
Se ouço ou leio um nome não preciso de canção de amor
pois em dias de chuva há sempre um sol disposto a aquecer as carnes

Vejo os homens indo e vindo, toda humanidade peregrina em mim
Sinto, por pouco, insuportável vontade de me explicar
Falar de mim como homem, bicho alucinado ante a falida razão tátil

Escrevo o nome dela como se ainda fosse imaturo
mas as minhas rugas me permitem essa liberdade
Desenho o nome dela, rascunho letra por letra com pena de passarinho

que pousou, cantou e sumiu sem que mais ninguém ouvisse
Desaprendo cada dia um pouco mais de mim
Vou me entendendo em desejos, conquistas e sabores

Começou um barulho bom lá na rua.
No meu coração muitas ruas se encontram e se perdem sem saída
Faltou luz nas casas e as crianças nem percebem que compoem uma sinfonia.



Nilson Marques jr.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Encontro

   Era realmente um homem feio. Traços másculos voz grave e firme, sujeito a quem o vinham na expectativa de violência. Poucos o conheciam, e era conhecido como O Feio. Ao espelho da memória, condenado por dedos em riste e zombarias companheiras desde a infância, o faziam entender e achar graciosa a falta de beleza.

Dois momentos de sua vida influenciavam sua mente de homem: esse homem ora exilado de afeto ora desejado expositiva e ocultamente contrastavam a realidade que ele mesmo havia se habituado quando algo assim ocorria não se via ele, mas um outro como se ele fosse um adereço para o curso do desejo.

Nesta outra realidade ele conseguia se auto analisar, sem pesares. Esperava atentamente ver o copo ser erguido por ele mesmo na padaria em frente de onde se encontrava agora. Era um café quente, quase sentia o gosto e o dedo arder pelo calor do copo. Não haviam dúvidas de que aquele homem comum, do outro lado, era ele mesmo. Pessoas sentavam ao lado, participando de uma refeição sem o menor entendimento entre si, como se todos fossem objetos incomunicáveis. Certa aflição tomou conta de seus sentidos, poderia ir até lá e iniciar um diálogo, porém com que objetivo? O outro entenderia sua aproximação e será que ele também o reconheceria? Eram questionamentos rodopiando em sua mente fervilhante. Outras circunstâncias o impediam de ir até lá, essas ele não sabia das nomes, era um homem, comum cidadão, sem nada de grande interesse.

O suor frio desenhava sua testa e as mãos tremiam, era espantoso ver-se noutro e em aspectos tão diferente:
"- Nem gosto de café", pensou. Logo terminado o homem saiu, e caminhou por duas longas ruas, completamento afastado dos demais transeuntes, ele foi até certo conjunto empresarial entrou e rapidamente saiu. Rapidamente não significa que foi imediato, cerca de duas horas depois, mas a sensação era de poucos minutos. O Feio tentava despistar seu interesse até por motivo machista pois sentia que deveria estar ocupado nalguma mulher e não num homem mesmo que esse homem fosse ele mesmo perambulando por aí. e ele sabia bem o que é não ser buscado pois tudo o que não salta ao questionamento alheio se torna desprezível e era assim que se sentia.

Já eram horas e horas envolvidas em ligações, encontros, quase atropelo, mais comida de rua, abraços e um encontro marcado. "- Como poderia eu ser ele?", Voltava a se questionar, pessoas tão diferentes e apenas ele acreditava nisso pois o outro nem mesmo lhe notou durante todo o dia. Ele se sentiu abatido e confuso, mais ainda porque sua feiura era atrativo de olhares, mas agora ele simplesmente sumiu.

Dias e dias passavam corridos e constantes e aquele homem mostrou uma vida agitada e convidativa. Depois de quase uma semana Feio decidiu ir até ele. Sua vontade era de esmurrar o homem e em outros momentos de falar sobre ele mesmo para que o homem aceitasse que eram a mesma pessoa.

O homem estava em todos os lugares, ele não conseguia se libertar disso. Pensou em morte e se era possível alguém ser tão feliz quanto ele era naquele homem. Viu que era amado, e que o seu apartamento não era solitário, e quando olhava para si, Feio fazia grande esforço para lembrar o endereço de sua casa.
Chegou ao ponto onde não poderia passar dali. Era hora do encontro. Noite de sexta, comecinho de noite, tempo perfeito. Feio o aguardou em frente a guarita e nada do homem descer. As luzes foram acesas. Mesmo sem estar lá Feio sabia quais foram acesas e o que o homem estava fazendo. Isso foi deixando ele nervoso, mais ainda. Nada do homem descer, e Feio sabia que ele não desceria. Talvez por ter tamanha certeza disso é que ele decidiu fazer o encontro nesse dia e tempo. O frio da noite foi aumentando e o cansaço também. Deu umas voltas para não chamar a atenção, o que não era necessário pois o Feio não era notado ou esperado, segundo o que ele mesmo pensava de si, como o Feio.


Certa melancolia e angústia o envolveu de maneira tão assustadora que se viu apavorado e se sentindo sem saída. O homem, isto é, ele mesmo, no apartamento, trancou todas as portas, desligou celulares interfone e telefone. Apenas as luzes o representavam. Os movimentos cessaram. Feio ficou preocupado, aterrorizado! E tamanho foi o pavor que ele caiu sem forças sendo rapidamente socorrido por um morador que iria iniciar uma caminhada. O rapaz se mostrou muito atencioso, e lhe deu um pouco da água que levava, quase forçando o Feio a beber. O bom samaritano notou os olhos e nariz vermelhos e questionando algum número de amigo ou familiar dele para um atendimento hospitalar. O que não conseguiu, feio não tinha ninguém para conversar senão ele mesmo que continuava trancado no apartamento. Era muito para um peito de homem suportar, mesmo sendo o peito do Feio não conseguiria suportar as dores de ser duas vezes ele mesmo.
Seus olhos embaçados viram o samaritano o erguer e desejar uma conversa, ele disse que o estava vendo desde cedo e estava curioso em conhecê-lo. Nesse momento um silêncio pesou sobre a noite, nenhuma sirene ou grito ou qualquer som foi percebido. Um abraço selou o agradecimento e o sentimento de dever cumprido. Cabeça baixa e ainda zonzo Feio foi caminhando e algumas lembranças que não eram suas foram aparecendo a sua mente. Certo assalto e medo e dois tiros e uma mulher morta. Ele parou olhou fixamente nos olhos do seu "samaritano" e era como se ele esperasse por esse olhar do Feio. Feio entendeu muito mais do que gostaria e voltando para sua despedida a cabeça não estava mais voltada para o chão. Dobrou a esquina e as luzes do apartamento foram apagadas.

Nilson Marques Jr.     



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

* Espelho perfeito

O mundo está ficando longo demasiadamente.
Cheio de verdades negadas e angústias.
Posso conhecer tudo sem saber o cheiro
das coisas, se é que existe gente além das coisas.

Eu deveria ter medo. Contabilizo o pouco
do que me sobra de lembranças esmigalhadas; poderia
ao menos me dispor a estar, como se
houvesse fé nisto, mas não há.

Estou estranho como mandacaru em centro urbano.
E livre feito pássaro levado em gaiola.
Entender que o mundo chegou ao cúmulo das
não conquistas, mãos sem mãos conhecidas, risos caricaturáveis

Saber que estou sem estar presente
ou cidadão pária de terras tão impossivelmente
iguais a mim, é reconhecer a distancia de si mesmo.
Não aceito perder a rudeza de ser gente,

a parte de todas as janelas quais espreito
sobre todas as camas em que me deito
eu o poeta, o Nilson, a fera humana, nordestino
na saliva e nas retinas, me desencontro do mundo.

Absorvo a poeira dos casarões, o suor dos ônibus,
sargaços das praias, o piche do asfalto, o verde do ingazeiro,
o amarelado das fotografias, embrenhado no Quando para me comunicar
sendo a linguagem explícita em contato com gente: Gente!

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Carta ao Amor distante

Neste últimos tempos

tenho te amado em silêncio
tenho calado os sentidos
tenho pouco dormido.

Nestes meses anteriores
muitos foram os dissabores
e outros tantos me tenho esquecido.

Nestas outras horas que se
encerram arde a carne
destas palavras simples

por te amar, eu feita de
silvos noturnos, desejos absurdos,
te sinto atravessado, prendo essa marca

ao meu corpo inundado já
de tanta espera ganha, ferida de gozo,
desarmada, prenhe em delírio.

Nilson Marques Jr.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sonhador

Aquele que sonha tem em si mesmo
a solidão e a dor da ação.
E na saída enquanto se trabalha

Essa força que é sua
o Sonhador passa o dia inteiro
na cruenta realidade

De não poder sonhar.
Sonhe meu amigo
Só a dor de ser

Não basta, ao som
desmembrado
do caule que se desfolha

e fica feia a árvore pra noutro
dia florir sendo a mesma árvore, portanto
trabalhe, moço!

Deixe o sol descer raiando
e clareando o riso não entendido
e vá se rindo que a boca é cais

é porto inseguro, estando torto
as naus imagináveis de tantos lugares
que só o teu riso alcança.

Caminhe para onde se pode amar
inventando outra solidão
fugidia das cores vermelhas

e alvas e claras retiradas de olhos
sorridentes, caminhos atrevidos
onde tens o norte do saveiro

singrando teu mar, sangrando mais
vivendo só em tantos ao som
do sonho, sonhar-te e ter-te e partir!

Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Poética IV

Existe mais poeta que poesia.
Quem a expõe não é só o escritor
daquilo que se sente e foi escrito.

A poesia está dentro como se escondesse
cavernas na própria caverna que a prende.
Sintam cada verso como quem senta-se

para ouvir a voz velha da infância,
despejem cântaros de sensações
sobre o delírio daquilo que salta

peito a dentro sem vontade de voltar,
e o cheiro de carambolas que não passa
o leito do gozo desarrumado,

a pressa dos que não tem horas
atadas ao mesmo desejo
descompassado em si mesmo.

Cada verso é um poema dentro do poema.
É semelhante ao amor que ora se esquece
e torna-se a amar, para amar de novo.

A poesia está na boca que mastiga
palavras duras e sopra a saudade de um dia.
um dia todo de sol e todo de chuva para quem o busca.

Que arda a pele da razão untada a sensibilidade
tranquila nos pelos arrepiados da mulher amada
porque poesia é a autobiografia de quem a sente.

Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Busca na fuga

O poeta não deveria saber de onde vem a poesia.
Essas coisas são perigosas demais...
É um sabor de amargo bom de se ter no céu do tempo

E em cada tempo uma flor nova de espanto brota
mas na verdade deveria e haveria de se ter é silêncio e água.
Associo sempre as coisas simples a água que brota da carne da vida

E Jesus continua a estender a mão, oferecendo-a, eu tenho medo de beber
Essas coisas são perigosas demais...
Olha, os homens não deveriam achar beleza nos versos

Melhor que fossem comuns e tão e tantos que nem se chamassem a atenção
mas esse ofício é de quem sente, e expele e é parte do que foi exposto
o carnegão de coisas doídas e a rima é sangue escorrendo.

A poesia bem que poderia ser lida sem se saber que é poesia
como quem ouve o filho rir no fundo da casa correndo atrás da galinha
Existe um desespero na fuga do bicho e o menino apenas se ri e está descalço

Os pés de quem ama sempre estarão descalços
O peito de quem tem verso estará sempre disposto, sempre aberto
Isso não é certo, não deveria ser assim, mas se não fosse desta forma não existira o poeta.

Um dia quando as coisas forem tão possíveis quanto uma galinha
perseguida pelo menino eu poderei perder essa aflição a poesia.
O verso sem palavra alguma, todo agitado e colorido, sem revolta.

Certo dia (eu não poderia esquecer de versejar isso) a galinha
cansada de tanta fuga se danou a querer voar, eu acreditava que era voo
ela poderia estar fazendo qualquer coisa até tentando voar

Que seja! O dia era claro como o brilho dos olhos
de quem se sente saudade, e a poesia, abrindo asas, carregou
o meu menino eu fiquei olhando, olhando cansei eu de olhar e voltei a ser menino.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

*Dor

Nascemos em dor alheia para, pela dor, sermos.
Outros morrem pela dor da perda, do que foi arrancado.
Dolorosamente a vida é um cintilar de possibilidades

a dor é uma delas.

Existe a hora de doer por amor,
e também de doer pela falta de amor.
Temos o momento da dor necessária, parto 

difícil de conquistas, relembradas a dor 
se torna totem da força demonstrada
porque quando se foge da dor mais dor é causada.


Nilson Marques Jr.

Declaração de Amor

Declarar o amor é recriar-se.
Exige maturidade em ser piegas.
É preciso inverter-se para conhecer as ações do amor.

Não se ama para ser amado.
ninguém é amado para amar.
Este comércio foi abolido no coração.

Para o amor tudo é troca,
é descobrir a beleza dos olhos 
de quem se ama preso aos teus, fechados.

É estar quase sempre despreparado,
sem forças e sem a devida capacidade
que tanto aclamam os que são sábios.

Eu, dentro da minha matéria, prefiro amar
amo em silêncio e compondo sons do silêncio.
Amo verbalmente, usando o corpo feito grito.

Misturados, ao toque sobre si, sente-se 
a mulher que ainda estremece na lembrança.
uma dança sem a necessidade de música onde tudo balança.


Nilson Marques Jr.

sábado, 2 de julho de 2011

*Estreme

 E o peito acelera-se no batuque
Toda uma vida inalada, entorpecendo
o corpo, que já não via mais nada.

Escuridão.
Minha fresca e assombrosa escuridão.
Meus ventos mortos, meus cárceres,
meus prisioneiros, minhas trevas.

Enrolo-me em ânsias sedosas,
aqueço-me e voo buscando o ápice deste poço
que é minha alma.

Tão duvidosa, arcaica e mínima
é minha alma.

De seus sussurros nascem flores
De seu tempo germinam sensações.

E o peito em transe acalma-se,
e por fim explode renovando as coisas postas

então candeço-nebuloso,
no mar calmo e intenso do existir.

Nilson Marques Jr.

domingo, 19 de junho de 2011

Poema do Amor Humano

Como em tudo competimos
não nos damos conta que no Amor
não cabe competição.

Impeçam as possíveis guerras
santificadas, pois no Amor não há
mortos nem feridos.

Mesmo que haja dilacerações
gangrenas e a falência múltipla dos sentidos
no amor nada disso se faz ritmo.

no Amor a boca é para sugar
a palavra bem-dizer, a pele pra arrepiar
e os olhos para não ver.

Como a erva que vinga no asfalto
inalcançável aos apressados retirantes
o Amor permanecerá, sim permanecerá!

Desconhece-o os que por ele se comunicam, fazendo-lhe
de recurso para outro atributo. Escondido esperando ser
achado, desprovido da agonia aparente.

O Amor da cor a qualquer gente
faz da saliva cantiga de pássaro extinto,
antes mesmo que a morte existisse.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Serenidade

Nada muito complicado
simples assim mesmo como
tomar café fresco numa manhã fria.

Como não desmantelar os sentidos
ao golpe ferino da feminilidade plural?

E são gestos, risos, um punhado
de cores em sua força verdadeira.

Qual a forma do Belo e pra que te serve saber tal coisa?

Beleza é estado gracioso
que se mantem longe dos ponteiros,
rebentando tudo e não há quem o suporte.

Essa inquietação incompreendida
é teu jeito de se dispor dos percalços para correr
Está chovendo tanto e só a poesia
tem a coragem de te seguir.

Tua imagem chega ante o mar
(te imagino beira-mar, catando cristais de sal, serenamente.)
E tem chovido tanto nos meus versos ultimamente
sem mistério ou coisa semelhante

O mundo todo é noite é mar é chuva são teus olhos sorrindo.

Nilson Marques Jr.

sábado, 4 de junho de 2011

Poema de Braços Abertos

Esta perto a minha ida
se estiveres lá não dês
com a mão acenos.

Deixes que me vá, no meu silêncio, 
fazendo parte disso tudo que há.
Só quando estiveres pequena, - sorria!

Teus dentes me trarão a certa
esperança de dois corpos duas almas: um desejo!

Porei instintivamente a cabeça
para dentro e fecharei os olhos
na mansidão de uma boa lembrança

e me enganarei por anos
pensando que tu não te esqueceras de mim.

Alguém desconhecido estará ao teu lado
não entendendo a nós, nem sabendo de quem 
te despedes jamais nos apagará

e comentando a outros estaremos
perpétuos, estranhamente sem fim.

Nilson Marques Jr
                           Salvador, 28/03/09 a  06/04/2009

O avesso do avesso

Para que lhe serve a pressa em ser amado?
O que te cabe como bicho, feito homem em voz e pensamento é amar.
Ser amado é improvável quase descabido como imaginar o sol no poente,
acabrunhado, a aquecer corpos. Dentro do ser te é imputado a obstinação de amar.

Para se amar não precisa muita coisa, um verso de amor
a lembrança da moça nua a olhar pela janela, retinas claras que riscam o dia,
um desencontro, aquele amargo na garganta pela falta da palavra,
a ausência da voz que ainda se pode ouvir...

Retenha sobre os tempos ponteiros certeiros, apontando a caravana
que parte pronta a tomar lugares que ninguém conhece.
Aprenda a ouvir a própria voz, alcance os ouvidos dos surdos
reconheça sua inegável paralisia.

É só um punhado de esperança para se viver
para quem parte e para quem nunca irá, é só
um punhado de esperança banhada em lágrima
e acredite, após acordar, que o sonho é mais real que a parede que te solta.

Haviam estórias de avós se alinhando ao silêncio da noite
Lobisomens a espreitar meninos pagãos, Mãe do Mato retorcendo juízo de caçador
e olhos de ainda crentes acompanhando a voz estremecida da boca velha desenhar
gente tão verdadeiras que nunca terão fim.

Ela não tinha pressa, minha voinha preta se balançando em sua cadeira frente a casa
onde até os vaga-lumes pousam para aprender, fala de princesa no sertão,
desafia cangaceiro e a volante, a voz tremida e cuspida com dificuldade
untou-se a alma dos meninos e nunca mais se foi.

Eu direi em minha vivência: Meus avós souberam amar, mas estou mentindo.
Eles não sabiam o que era isso, nem meus pais e a credito que meus filhos
verão o pai, fora da poesia, e pensaram: Pobre homem que não soube amar
e nesse instante, assim como meus avós, semelhante aos meus pais, eu serei amado.

Mas ainda consigo ver, entre a secura cinza da caatinga
e o balido distante no pescoço do boi morto
uma flor vigorosa surgir sobre espinhos da Coroa de Frade,
e do Mandacaru o vermelho do fruto é boca da mulher que me amou. Silencio, estou completo.

Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Planejamento

Tenho a ambição de ser lembrado por aquilo que me sangra
e calculo num ofício injusto
quantos anos terei de viver para isso;

E se de fato ser poeta é o caminho apropriado.
Acadêmico que sou, tomo as bancadas
ante a brilhante platéia que me odeia.

Estremeço a letra sobre a língua seca.
Devaneio que talvez em algum velório
estivesse mais a vontade.

Duas opções encontro:

Ou ser como a maioria me enxerga vil
ou ser como os que ainda não me conhecem
e me cumprimentam ao cruzarmos algum

Caminho.

Tenho a frustração de ser visitado humanamente
por aquilo que desconheço.

Se me aplaudem não sei o motivo
e me deixo inflar o peito gorduroso
sem buscar o sentido.

Lendo meus versos os leio como não sendo meus
e boas sensações me impregnam.

Não, não quero ser o orador, nem contado
em unidade de conjunto algum.
Ser lembrança já não me enlaça.

Serei o faxineiro que não paga entrada
e fazendo sua lavra digna e inócua
perfumou-se de toda arte, fechando o sentido sobre si
reconheceu em cada verso e mulher que o ama, seus filhos que o amam.

E eu sou toda lágrima que dele se verteu.

Nilson Marques Jr.

sábado, 28 de maio de 2011

O Pássaro

Tens um pássaro de asas abertas
mas está preso as tuas costas e não voa e não o vês.

Tens animais belos e valentes em ti
mas estão sempre bêbados ou presos a tua imaginação.

És poetiza e não precisas de folhas pautadas
e entendes a estratégia do medo.

Suportas a franqueza alheia,
e tem dias que acorda brigada
consigo mesma por continuar a acreditar
                                                         [pensando ser fraqueza.

Enquanto todos dormem
disputas entre o medo e o riso

Entre a força e o medo
Entre o medo e o ter

Uma vez comprou o mar
mas esqueceu os navios

E os sonhos que descambam teu mar adentro
te delatam, te encontram, te espalham
Já não te podes juntar, - És grande!

Nilson Marques Junior.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Contemplação/Consumação

Em minhas mãos
guardo todos
os desejos inacabados
dos homens.

Censuraram os movimentos
de que preciso
e sinto

                                     por trás das paredes
um ventinho calmo e seco
sair de outras narinas...

Sei da situação em que me encontro
- Longo tempo morno, de sargaços
e fósseis imersos.

O sol não chega ao hemisfério dos efêmeros
e (alucinado)
visto minha melhor farsa

Me misturo aos outros
numa comunhão de desgosto
e angústia.

Procuro-te poesia vitalícia
em ventres inférteis,
no coletivo sopro das horas.

Procuro-te (amarga) poesia
como o afogado procura o ar
e sou dentre as coisas mais estúpidas a mais reluzente.

Eis que tomo a forma de um porão
já não caminho nas ruas
(agora lúcido)

entretanto preciso de tudo
abro as mãos e o que tenho me escapa
inicio uma revolta:

A poesia longe dos poetas
mantêm-se intacta!

Nilson Marques Jr.

Como preparar o Amor

Amor a gente prova
com a mão. Lambuzando
os dedos, sujando o queixo.

Amor é iguaria a
ser servido a dois, prato quente,
onde se come com o membro do outro.

De Amor não se pode fazer dieta
nem enjoar seu sabor
Amor tem cheiro de sons a gosto, gostoso.

Amor não tem preço tabelado
cabe em qualquer casa onde houver
espaço para uma dança, um desejo, uma fome... 



Nilson Marques Jr.

Solidão

Ventos dançam, rodopiam cadeiras, poeira.
Ventos que saem dos corpos, hálito estranho
De tanto que soprou e sopra, - Ventania.

É quase assim o amor, e não me atrevo
A falar Dele, dando seu nome por conhecer os riscos
E quantos morreram tentando, - Solidão é minha obra de arte!

O amor está no jeito em que meu filho pegou a bola que
Parada não era nada, só uma bola, pegando ele com suas mãos
Firmes e pequenas, daqui a trinta anos terá a mesma mão

Pequena para meus olhos, sua geometria transborda
Tecendo outra forma, toda dele toda minha, totalista
Ao ponto de nunca sair de suas mãos para minha memória.

No corpo dos homens e na pressa dos homens
O amor é uma hipérbole mal entendida.
Uma réstia de luz sobre os pratos postos sobre a mesa

Prestes a ser mastigada, possuindo o ventre
Invocando vozes engasgadas, o Deus esquecido.
O amor é quase assim.

O amor está no espaço entre a penetração e a exaustão.
O amor existe sem que o conheçam, sem se saber
De onde vem nem seu prumo, - O amor existe sem que o agitem!

Amor não é uma palavra o amor são lembranças
O amor deve ser temido, não evitado, o amor
É um verme esfomeado, oculto no corpo, e quando a carne sede ele a devora!



Nilson Marques Jr.

Crônica

Uma pequena perfuração no crânio
Fez com que o corpo tombasse, hostil.
No alto canavial, onde o verde belo refugia
O que não é mais dor nem possivel alegria

O corpo transpassado a chumbo, avisa
Aos vermes bestiais e vigorosos
Prenúncio a outra vida, desconhecida.

Não há nome, nem sangue, nem sexo
É só um corpo é só um chumbo e todo o silêncio
Quando existia sexo, sangue e nome, eixo
Para tudo nessa terra, já era parca criatura

No anúncio abissal do odor fúnebre
Rebrilha mais que o sol concreto
Asas providenciais dos urubus diletos.



Nilson Marques Jr.

Não, obrigado!

Éramos esquerdistas orgulhosos
De estarmos à sombra, condenando
Por não ter poder para mandar, olhávamos
Platonicamente cadeiras de madeira nobre
Tínhamos a barba longa, idéia firme feito
Pedra e todos os poetas eram nossos.

Conhecíamos as cavalgadas bélicas
Consumíamos calcinhas ouriçadas
Derramávamos sêmem na boca angustiada
Da Constituição. Amontoávamos covis feitos
Exclusivamente em nossa honra.

Em verdade nunca quisemos altura:
Perderíamos a barba, a pedra, os cursos
De jornalismo, arquitetura. Cuba seria (01) música
Ficaríamos impotentes, siliconados, então
Viriam novos canhotos a nos mastigar
Com dentes cariados, quebradiços
Seriam expostas nossas pantufas
E quantas vezes, sorridentes, pedimos a benção ao Mickey Mouse.



Nilson Marques Jr.

Itinerário e Meio Dia

I
.
O navio atou-se ao cais das delícias
Todos que desciam eram brancos, até os negros
Eram brancos. Umas mocinhas tão brancas que assustam
cirandavam o Pelourinho atrás de pretos alforreados.
Eram irlandesas ou suiças não se sabe
Ao certo contentaram-se com o moreno
E foram curradas pela primeira vez.
.
II
.
O velho careca e cara de bonachão
Lambia os beiços segurando o sorvete de mangaba
Debruçado à Ladeira da Montanha
E seu pai teve mais sorte, marinheiro fedido, teve melhor sorte.
.
Turba de palavras e gestos confundem
Os inocentes vendedores de cafezinho,
O china se apressa a vender seu pastel e nem é
preciso entender tudo o que se diz aqui.
.
E a menina magrela de fome da morte
Agarrou o garanhão pelos braços fininhos
Quer receber em Euro por ter mamado o pau russo
(Ou seria húmgaro?)
.
III
.
- Fitinhas, Fitinhas do santo! Alguém grita
- Um real para prender no pé, um real pra prender no pé!
As pedras cantam um ritmo ocultista e o policial se agita
Brincando com os pombos.
.
IV
.
O evangélico, recém liberto da cadeia, vê tudo
Condena tudo, os homens brancos tiram fotos e acham lindo o inferno.
.
V
.
Uma preta suada, saia rosa e rodada
Divide ao meio meu verso inútil, inatingível pra mim que também sou branco
das galeras em desalinho, e as galegas
ficam desoladas de terem vindo a Bahia.



Nilson Marques Jr.

Retalho de coisas

O poeta foi saudado nas jornais

Quando ainda se lia poesia
Em cartões de namorados
Seus versos certeiros apoiavam amores
Indissolúveis e os eram assim por mérito do poeta
Amor do poeta atado a feixe ocultos nas cicatrizes

Olhos gotejam delicadeza
a profundidade, em tinta silábica
No Reino das Palavras o poeta usa coroa
Passeia cavalgando cavalos mágicos, batem a ferradura
No asfalto desentoando uma sinfonia a toa.

Todos vão ao coreto ver o poeta
Lançar pedacinhos de sonetos pros pombos destrambelhados
Que quando voam saciados pintam o telhado dos homens sisudos.

No centésimo aniversário de minha vida
O poeta veio sem ser convidado e era o mais esperado
E eu fui o Criado Mudo delatando segredos da vizinha sem sapato
No pé esquerdo e as peripécias do senhor barrigudo e diabetico.
Noutro quarto o poeta lambe seios satisfeito.

Não sei dizer se antes ou depois disso
O poeta foi encontrado morto e seu registro dizia ter mais de mil
amores selecionados, um charuto e um trago de cachaça da boa.

O poeta foi carregado pelo pênis até a beirada do mar triste, sem albatrozes.
No percurso, de braços abertos, olhos ressecados
Sílabas desencontradas escorriam girando girando de seus cabelos.

Ninguém viu quando o poeta correu aos pés da Catedral
Está falando de amores novos, pleonasmos.
Abraçado ao último gole de rimas do dia, bateu a poeira sobre outros versos
E canta até agora acarinhando os velhos pombos, assistindo ao seu corpo ser esquartejado. 



Nilson Marques Jr

Eita coisa piegas Meu Deus

Amo por que te amo.
Não preciso te dar explicações.
Te amo por que te amo.

Te amo como se não amasse coisa alguma.
Como se tudo fosse novidade.
Te amo como criança vendo o mar pela primeira vez!

Te amo como quem está prestes a morrer
e respira lembranças pela última vez.
Eu te amo como quem espera um milagre.

Pinto as ruas, colho desejos, risco os quadros
no meu desastre de amar, te amo.
Amar é meu estado oculto, calado, precioso.

Eu te amo sabendo do peso da verdade.
Aprendi a te amar te vendo, te ouvindo,
Aprendi que te amo vendo as andorinhas nos postes.



Nilson Marques Jr.

Poema do Sono

Da necessidade do afago
É que faço meu dia.
A estrutura do real eu corro 
Com olhos fechados.
.
Meus versos não dizem nada!
Aliás o poeta que voz fala
Nada sente, senão o sentimento do outro,
Dos que abordam nos sinais fechados.
.
Atributos da miséria mercantilista
E o sorriso preso a vontade
Governista, entre goles de wisky e leite azedo.
.
O que há é o homem, sólido, suado,
Sem direito ao sono e ao medo.
Transeunte da natureza neuplásica.
.
A cama não suporta meu corpo
E nunca me beija esta mulher como da última vez.
É como se me corroesse de ânimo beijá-la.
Não importa como venho parar aqui toda semana
.
Sei por hora que de mim, corpo esfuziante,
Todas as mulheres me beijam por ela.
Na verdade ela tira o vestido,
Em verdade lhe cai dos ombros o vestido.
.
vestido sem cor que sobressalte a dela,
E tudo é delicado como o que penso ser morte
E todas as mulheres que desejei recuam ante ela.
.
Minhas narinas sentem fragancia de carambolas.
Do pé da casa de Dona Dorinha
E sua filha me fez carinho nos cabelos
E me deixou tocar nos seios e eu curioso com
......... Novíssimos pelos pubianos
.
E a vida humana era apenas os seios e meus dedos
Tocando aqueles seios
.
Lembro dos banhos que toda semana espreitava
E da vez que descobri que nenhum pelo guardava 
Aquilo que não conhecia e me fascinava.
.
O corpo dela...
Ainda me desconjunta, desarmado e indecentemente vencido.
Tentando tocar essa mulher que é mais que corpo
É sinal do amor Divino, sinal do apocalipse.
.
Sairei de onde sempre saio com a firmeza que ninguém
Me conhecerá, como ontem não ouvi palavra amena.
Como hoje sem mão que me buscasse comum acordo
De pacificação.
.
Mas saindo transbordará tanta coisa
E ninguém continuará recordando essa figura
Entretanto fartarei meus versos provando
Que conheço os lares e seus cômodos.
.
Faço, num gesto sutil, encaixe nas
Entranhas sendo virilmente ostensivos, sem receio.
E a moça em meus braços saúda o que há
Com a pele armada, exército retornando sob aplausos e fogos,
De suas guerras.
.
Concluo, dentre as próximas horas que seguem
Nobre semelhança ao que seja desolação. Daqui em diante
Por tudo compreendido e achado
Me é pesado a embolorada convivência cotidiana qual ajusto.
.
terei de sair desses versos, queria dizer da valentia de sair desses versos.
E cantar minha canção desacreditada por meus pais.
Nilson Marques Jr.

Reflexo

Ah... eu quero chegar antes
Mas essa chuva que escurece o céu
E os passarinhos se remexendo nos fios

Sinalizam para mim como fazemos a um velho amigo.
Gotejando cores por toda cidade dentro do que permeio
E o que ainda não vi nem conheci se torna tão remoto

Meus pés deslizam como nunca antes, assim desconfio que 
Para mim reservam delícias, mesmo que já a tenham provado.
Tenho concluido formas e assombrações como quem joga pedra no lago

E a pedra não volta nem a margem das águas se eleva
Mas a pedra é minha e o lago e a beirada do lago.
Clareia raios o céu e meus passarinhos me deixam

As vezes fechar os olhos faz bem
As vezes deixar de sentir refaz a ordem
E tudo é grande como um lampejo na noite.



Nilson Marques Jr.

Poética III

Ser poeta é uma senteça.
Não escolhi eu ser poeta, uma vez vi um besouro
Outra vez vi um velho. Todos rimam.

Não escolhi permear por todos eles. Não.
Um dia eu estava como qualquer outro que é ingnorado
E li um versos dentro de mim.

Eu queria ser engenheiro, eu queria ser contista.
Eu queria ser fabuloso n'alguma arte, - a mim vieram os versos.
Minha poética é simples, nada de estupendo.

Vejo escrevo me invento.
Continuo sendo o poeta.
Quizera poder, com eles, afanar como um cavalheiro 

As possibilidades dos engenheiros, dos contistas, dos farmacêuticos, 
Sim deles também.
Na noite no dia ao meio dia a meia hora atrás 

Sou o mesmo poeta.
Dissoluto nisso mesmo, 
Minha poesia e pra ler pensar que seria de alguém grande e sorrir.



Nilson Marques Jr.

Como morre um amigo


Estava só o corpo por quatro dias
Esteve só a vida toda [no elevador
..... Por ser poeta

Não teve o rosto reconhecido amistosamente
Seu coração e verso contemplaram
O valente miocárdio se despedaçar

Poderia fazer um poema
Medido em seu octossilábico sistema
Mas a morte era sua, sua meu poeta!

Abriu-se o corpo indiferente
A marmita do pedreiro em um futuro condomínio.

Seu orgulho, gastrite, seus óculos
....... Corretivos]
Contam apenas que ali havia vida

Só as crianças e pinschers deram por sua falta
Porque criança teima em revelar
Aquilo que ocultamos.

Logo agora dizer que era gente boa?
A polícia técnica sobe as escadas.
Estranhamente há serenidade
E há também fezes nas calças [dor!]

Encontraram o caderno, siso do falecido
I.ML. recolhe o corpo, versos
Ficam jogados, envolvidos na escassez de leitura.

Meu amigo, caríssimo poeta!
Cadeira cativa nas praças,
Servidor público em tudo

Amava como servidor público
Uma vez escreveu dois poemas
Para sua amiga de repartição

... E a moça não o alcançou, - Poeta!

Neste último instante 
(Insisto em dizer último por ser mentira)
Encheram a casa do parco amigo

A menininha aprendiz de nosso alfabeto,
Soletra seus versos
- Meu amigo, apodrecido, ganha sua platéia!
Nilson Marques Jr.

Poética II

Geralmente a noite é longa
Gelatinosa insônia que sempre
Se apodera do latifúndio dos sentidos

Esmigalhando nervos,
Tornando o sol por essas bandas quantes
Mais que mentiroso

Com carnes salientes
E toda sorte de cores se nos engasgam
No intervalo das coisas

Normalmente escrevo demais
Sobre os outros "como sendo eu"
Para que assim meu catarro na tua cara

Fique bem empregado
Enquanto me esforço em fingir
O quanto isso me enoja!



Nilson Marques Jr.

Poética I

Meu verso é um desenho esquecido
É quando se deve calar e se fala
Ou falando se cala consentido.

Meu jeito de me entranhar
Colhendo lágrimas que lavam risos
Corrigindo o tumúlto dos atrevidos.

Se canto ou calo há um verso solto
Me rasgando a alma, sem nem mesmo entender 
Que seja alma.

Meus poemas são cantiga torta
nem sempre agrada nem sempre volta
Mas que me importa? Bom é não apenas ter.



Nilson Marques jr

Para ser Homem!

Por ser dificílimo o ofício do poeta
esse primeiro verso, acanhado, em que me escondo
é sim na verdade o suor de todos os poetas que cantam o Amor.
Não esse amor inchado que você conhece (corpo que boia em águas)
esse contexto de se entender no nada.

De fingir qualquer coisa, não por ser dissimulado
mas por não se conhecer mesmo
e outro que não se sabe o que pensar atribui para si
tal palavra que grita hemorragicamente
insatisfeita no meu vocabulário.

A chuva cai em tropeções, não há abrigo para os homens
O pedido do pedinte é a música da minha vida
O bêbado incoveniente tem falado verdades que ocultei por toda a vida
Raramente esqueço uma agressão, essa é minha liberdade
aviltada do entender, que me aflige nos dias felizes.

Nunca perdi ruido algum. Uma imagem não é real
sem sons, o mar sim o mar agigantado mar! Se não transbordasse em notas
a ninguém amedrontaria. Mas o mar, mesmo repartido, (casario de heróis falidos e demônios iúteis) agigantasse ao se rebentar em brumas.

Realmente não há suspiros para o poeta. Ele passa sóbrio, é a figura mais esdrúxula
- Se os versos o abandonassem em definitivo
jamais seria lembrado adiante. O poeta passa, não há fatalidade nisso. 
É o que é. Riam todos do poeta se riam todos pois ele caminha.
O vendedor o vê e ri. A doutora o vê e se ri, o mendigo o abraça numa fraternidade cética. Todas as mulheres esbarram e se riem do poeta.

Os versos cabem todos, o Homem só caminha, não pode reclinar a cabeça!
Cabem todas as amantes e bebidas, toas as noites de uma vida 
cabem sim nos versos!

De onde se vê permaneçe a ordenança para os meninos:
Não chore! Não comemore! Não fale! Não se cale!
No silêncio do poeta a desordem perde o ritmo.


Nilson Marques Jr.



Mais uma vez o perdi!

Esqueci o verso que viria agora.
Ele se esconde dentro das pessoas 
que convivo, me fermentam os sentidos.

Percebo que o poeta, em si, não passa de um ser
amparado pelo verso que se perde
pois tudo que não provamos tem um sabor melhor.

Poema miserável! 
O poema tem vida própria e zomba do poeta!
O adulo num vício, o devoro com medo.

Meus cadáveres, meus avós, minhas amantes imaginárias
São meus versos, meus ladrilhos, meus varais onde estendo
roupas velhas e coloridas. E os passarinhos enfeitam com seus pousos.

E esse arar a alma, rasgando a carne dos desejos
soa como o sino falido da capela
Anuncinado o apelo deformado da carne em letras!



Nilson Marques Jr.

Ferida Exposta

Sai do interior

Minha casa ficava na roça
da cidade mais enroscada
desse país

Nem sei o tamanho dele
mais descobri minhas ancas largas e
Minha cor mulata brejeira
sem medo me fiz forasteira

Na cidade maior, fui a casa de dona Albertina
Mulher muito fina de traços elegantes
unhas bem grandes ela tinha
me recebeu com honraria

Por ser novinha cheirando a terra vermelha
me deu banho me depilou os pelos
me levou ao seu grande amigo bigodudo
Ali soube que era meu futuro

Areganhar as pernas noite e dia
em troca de uma mentirosa alforia
Perfumes mimos e charuto
Era essa a minha rotina

Só pensava em painho -Ai de mim!
Soubesse ter ele uma filha rameira
gostava se me chamassem de meretriz
Me sentia tal Leopoldina a Imperatriz

Uma senhora citada entre galhovas
Mas imagino que ela não carregar nas pernas
As marcas dos dentes pustiços
Duns brancos fedidos

Que me encheram o bucho
pari mais que
a cachorra do terreiro
meus minino correm esse mundo inteiro
Mas eu sei os nome deles todos, até o do Turco

Que um dia disse me amar
Nunca me tiraram essa senzala
trataram mesmo foi me amarrar
Ferida velha e desdentada

Hoje tomo conta dessa casa
Meus Barões já não nos vizita
E essa ferida que não cicatriza
por onde passaram meu choro

Serve pra mim como consolo
Porque assim me sinto forte 
Mesmo sendo quenga vindo do norte
Posso sangrar mas não serei serva da morte.
Nilson Marques Jr.


Carambolas

Admito que os ruidos por mim ouvidos
foram meus passos se comunicando
com o caminho.

Socorrendo, acolhendo, trazendo
as marcas da história sobre as costas
cuidando de não sofrer mais do que se suporta

a minha alma vai descompassada, alforriada
deste mundo que me disponho a descrer.
Afoito, afiado, farejando a própria carne

apresento meu canto sobre galhos da árvore da vida
- Uma frase repetitiva...
Como se a busca homem adentro não cessasse,
sem negar a quem se ama

Se ferindo, refletindo e depois se revestindo do verdor da lágrima
corrida e eu ainda consigo ver as folhas secas
espalhadas ouvindo os estalos delas esmagadas

envolvidas no cheiro tranquilo
das carambolas pencadas
quase que escorrendo da boca que irei sugar
me retrocedendo a mesma condição de menino
a espreitar banhos.

Eu me dedico a ver por sobre os galhos
que se dobram aos meus delírios, tão propícios
a tudo que não posso, querendo, e quanto mais tenho
mais me vejo possuído, devidamente inebriado, sem meio
ou adiante, atrelado ao passado, como tudo que é perfeito.

Nilson Marques Jr.

Catedral

Minhas horas todas palpitam
como artéria de um cardíaco;
Assim tenho a vida e sigo por uma calçada
segura alheando a marcha lenta das lembranças
ao silêncio Catedral de meu corpo.

Ô ciência de qualquer tristeza humana
                                                                 - A tomo como oferta.

Minha cabeça, entrevia de coisas estúpidas e vivas,
queima em febre aguda.
E into comprimido sobre meu peito a calma dos enforcados,
dos fuzilados por seus crimes.

Mesmo cego ou surdo saberia mostrar-vos, precisamente,
o que seja matéria e o que seja espaço, vácuo, também,
pois tudo pesa sobre a minha alma que não pesa sobre nada.

Não importa quanto chore criança ou velho,
vejo a vida sofrendo, paralítica,
como um aborto inesperado pra família.

Esta é a vida e entre os dedos o seu barro tenho
Agachei-me sorrindo, com um pauzinho tirei a lama e
por um momento fui apoteose de todos os poetas.

Nilson Marques Jr.