quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poema em negrito

Existem noites diferentes como gente.
Eu conheço tanta noite e tanta gente
que tem horas que emendo, os nomes

Digo a uma estrela: Bom dia
e da moça conto crateras.
Um dia, uma noite diferente de todas as outras me inundou
eu sou cheio de noite e todas as noites são sem fim.

Meus olhos escureceram sem esperança
e a minha alma vagueia sem penar
contornando a madrugada vadia
que me chupa as forças e as cores
feito um buraco negro pra imaginação de criança

Uma noite fria de vozes... 
e que coração há no meu peito de homem
quando nem peito sinto, e a neve conserva as lembranças
quando nada impedia uma boa dança
e as noites ficavam paradas, iluminando os nossos pés.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Subterrâneo

Até onde pode ir a alma humana?
As cores vão se reunindo na ribanceira de minha alma
como se no suicídio coletivo tudo pudesse voltar

E ao invés de descer subir, e no perder haver ganho
e a alma humana suportando toda a carga da verdade
As cores da partida. As cores da chegada

As cores do gozo, As cores da decepção de quem decepciona
As cores da página arrancada As cores do amor intragável
são todas elas minhas, e se espelham na ribanceira de minha alma.

Uma voz não sei de quem, me chama e não é o meu nome que se me dá
são nomes de todos os mendigos, de todos esquecidos de si mesmo, é assim que me chama
e a voz é minha, no subterrâneo de minha razão, impura e inerte, é minha a voz que me apavora.

Nilson Marques Jr.

Bem cedinho (Incelença)

Bem cedinho um Corvo inventou de fazer ninho
roubando meus trapo, se escondeu lá pra dentro do espinhento faveleiro
vizinho da casaca de couro, só pra espreitar meu canto

E quando não aguento mais cantar, garganta ferida, ele fica em meu lugar
cantando as coisas de meus olhos que não choram, dos olhos claros que de mim se apartaram
pra todo dia me espiar, como se eu não fizesse o mesmo, nenhuma sabiá ou codornizes

nenhum bem-te-vi, nenhum caboclinho, nenhum azulão, nenhum papa-capim
sabe de ti, só o corvo agoureiro, das bandas de onde ela se foi, comunga
com meu silêncio cantado, também espreitado pela casaca de couro

Que me engana de manhã, anunciando a volta dos olhos que nem em foto
ousei guardar, me permito enganar pra de tardinha poder cantar
os versos que o corvo, na cumeeira das lembranças, não deixa faltar.

Nilson Marques Jr.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Poema do limite da Palavra

O extremo das coisas é a razão.
Ao que foge dela e turva o entendimento, excede o sublime
instante da descoberta, apavora e extremece.

Mas são e estão nas coisas simples a exelência do homem,
no abraço e na vontade do abraço, no beijo e no gosto de seu vocabulário.
E a alma que não se vê, respira fundo o cheiro do sol.

São nesses momentos emudecidos que o poema nasce.
Todos os poemas do mundo são um só, gigante em sua miudeza aparente,
trazendo, gota por gota, a sede insaciável da beleza.

A criança que chora, o peito redondo de vida
Os pés descalços e a grama os sustentando
O chão ardente e a água, em suicídio, por ele se espalhando.

A lagarta procurando o cuidado de oculto para borboletear
E o homem cansado do dia, debruçando a satisfação na janela do ônibus.
Tudo cirandando, e a menina escreveu um nome engraçado no caderno no meio da aula, - que pecado!

Do outro lado da cidade o carro jogou o corpo sem nome sem idade ao ar
o vermelho da violência se espalhou no asfalto e jornal, todo mundo ficou sabendo
que um corpo sem nome e sem idade girou no ar.

Os pardais desceram e comeram o lanche que ele não poderia mais comer
e voaram por sobre os fios da cidade, e depois espantaram outras aves
que pousaram sobre a mangueira e se aninharam, e só meu verso viu.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poema da Solidão perfeita

Não há lamento na solidão.
O que existe é o temor de encontrar o outro em si.
Em cada passo a miúde, onde a sombra o acompanha,
este vazio de olhar, olhos vazados de ausência

Sem distinguir ações, toque de dedos sobre a superfície oculta
dedos sem digitais e marcas na memória que suavemente se fendem
e minam risos, desejos e o clarão dos olhos sorrindo em comunicação.
Não há lamento na solidão, além do próprio encontro onde o eu monstro se revela.

Nilson Marques Jr.