Poética Cotidiana
terça-feira, 16 de outubro de 2018
07:30 em Farrapos.
Cartazes amontoados sobre paredes mortas.
Anúncios de confraternizações que nunca participarei.
Na avenida macia a borracha passeia calmamente enquanto meus olhos
Registram instantes que logo esquecerei e serão avivados em outro lugar,
Montando um relato que só existiu por dentro de mim.
As criaturas da noite cambaleiam sisudas entre resmungos e lixo que o vento leva.
O hálito da hora se confunde com o bafo da tragada e os travestis negociam com
Os taxistas, talvez, uma última viagem?
Praças se estendem por onde o nome alcança. Flores da estação giram sem rumo
Como se uma gota divina despencasse sobre o monóxido de carbono e são cerejas,
amoras, abacates abrigando o cobertor grosso que abriga o homem abraçado a seu cão
que respira suave com olhar alerta.
Construções antigas saúdam as construções novas como quem oferta memória.
Surgem loucos nas esquinas armados de copo plástico e café.
Recitam indecências, balbuciam a sintaxe que se atropelam na ânsia por
Vomitar algo que jamais saberei e aí está o meu alumbramento.
Ruas escoam fadiga, risadas de moças eufóricas e pernas desalentadas.
Sento em um banco de concreto para assistir a disputa dos sabiás, pergunto as horas
Ao andrógeno que encerra seu turno: 07:30
Agradeço. Refaço o destino para as próximas horas como se tivesse qualquer controle.
Escuto atentamente as histórias da pessoa, compartilhamos risadas. Pergunto novamente as horas:
- Meu Bruxo, no meu relógio é sempre 07:30.
Nilson Marques Jr.
sábado, 28 de julho de 2018
Testamento.
Meus versos são acúmulos de silêncio.
O que observo é que é grande
E em cada espaço entre uma grandeza e outra
eu me aqueço, pasmo de tudo.
Meus versos não são extensões de mim.
Neles me camuflo e posso sentir certo conforto humano,
intervalo da pólvora e nascimento.
Meus versos, ora gente, ora sonho
São como tijolo quebrado do muro das lamentações.
Barro que se desmancha lentamente ao suor de quem os lê.
Meus versos, para serem belos, não me reconhecem.
Caminho disperso entre homens que são mais sonhos
Do que gente porque gente atulha o tempo, mas os sonhos resplandecem.
Não tenho posses, grifes não se apegam ao que me cobre o corpo.
Meu corpo é mínimo, não há formosura aos poetas
Porque eles, timidamente, preferem as palavras
E as palavras fornecem ciranda, armadura, colírio
Possibilidade de conhecimento do ponto cego
das curvas a que se desdobram os homens.
Meus versos são fios de açúcar na máquina de algodão doce.
Que as vezes coloridos lambuzam os dedos
Outras vezes claros não se explicam.
Atentamente me perco entre meus versos
E os versos do poeta libanês que me cumprimenta
no sebo empoeirado do centro da cidade.
Ponho em meus versos todos os homens possíveis.
Da minha incapacidade de comunicação fiz dos versos
Um testamento sincero, pois não estou neles.
Mas se neles estão os homens posso então me reconhecer,
Espelho d'água, areia sob fogo, retrato na estante de um parentesco
Partido dentre tantos a que meus versos sejam bem-vindos.
Nilson Marques Jr.
O que observo é que é grande
E em cada espaço entre uma grandeza e outra
eu me aqueço, pasmo de tudo.
Meus versos não são extensões de mim.
Neles me camuflo e posso sentir certo conforto humano,
intervalo da pólvora e nascimento.
Meus versos, ora gente, ora sonho
São como tijolo quebrado do muro das lamentações.
Barro que se desmancha lentamente ao suor de quem os lê.
Meus versos, para serem belos, não me reconhecem.
Caminho disperso entre homens que são mais sonhos
Do que gente porque gente atulha o tempo, mas os sonhos resplandecem.
Não tenho posses, grifes não se apegam ao que me cobre o corpo.
Meu corpo é mínimo, não há formosura aos poetas
Porque eles, timidamente, preferem as palavras
E as palavras fornecem ciranda, armadura, colírio
Possibilidade de conhecimento do ponto cego
das curvas a que se desdobram os homens.
Meus versos são fios de açúcar na máquina de algodão doce.
Que as vezes coloridos lambuzam os dedos
Outras vezes claros não se explicam.
Atentamente me perco entre meus versos
E os versos do poeta libanês que me cumprimenta
no sebo empoeirado do centro da cidade.
Ponho em meus versos todos os homens possíveis.
Da minha incapacidade de comunicação fiz dos versos
Um testamento sincero, pois não estou neles.
Mas se neles estão os homens posso então me reconhecer,
Espelho d'água, areia sob fogo, retrato na estante de um parentesco
Partido dentre tantos a que meus versos sejam bem-vindos.
Nilson Marques Jr.
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Curvatura.
Curvatura.
Um punhado de chão, a gravata e o clique de teclas.
Tudo bem encaixado no homem que entardece diante dos números,
algorítimos de cubo pardo e lábios cerrados.
Tudo bem encaixado no homem que entardece diante dos números,
algorítimos de cubo pardo e lábios cerrados.
O trote das calçadas se mistura ao tédio.
A cadeira sede ao peso enquanto o ar frio
alimenta os papéis arquivados.
A cadeira sede ao peso enquanto o ar frio
alimenta os papéis arquivados.
Pombos arrulham no telhado, como se dançassem anunciando comédia.
Despencam da visão clara da janela e a meta está fora de alcance.
O café torna a aquecer o plástico enquanto a luz
É bloqueada pelas costas do amigo.
Despencam da visão clara da janela e a meta está fora de alcance.
O café torna a aquecer o plástico enquanto a luz
É bloqueada pelas costas do amigo.
Leve estalo no pescoço e grave estalo do ponteiro.
E-mails, cordialidades, downsizing nos gestos, imóveis,
sabores, espaços, ritmos.
E-mails, cordialidades, downsizing nos gestos, imóveis,
sabores, espaços, ritmos.
Cadarço desatado no pé direito. Nenhuma vontade de atá-los.
Não há tropeços onde tudo foi previsto.
Reconhecer as falhas também é sinônimo de domínio.
Não há tropeços onde tudo foi previsto.
Reconhecer as falhas também é sinônimo de domínio.
Alguém se ri do outro lado. Contido some aos estalos de dedos.
Um gavião esbarra no vidro e não entra. Apanha sua presa
Isso é muito engraçado.
Um gavião esbarra no vidro e não entra. Apanha sua presa
Isso é muito engraçado.
Nilson Marques Jr.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Ela
Lasca de lume e queimor
a desfalecer trôpegos embaraços
para se desmantelar em novos delírios.
Silhueta das brenhas boêmias,
panfletária do gozo acabrunhado,
timidez de palpável consciência física.
Convicta em sua meninice,
altiva beleza de fêmea,
olhos de estradar, caixa de Pandora.
Desses lábios profanos
saliva o desejo de eras.
Boca de terra, boca criação.
Ninfa compositora de Pã,
possuidora da estigma de Eco,
vinho das festas privadas de Baco.
Se espalha, pé-de-vento, arruaça.
Os pequenos gestos do teu corpo
levantam as naus de Ulisses, rota de paraíso.
Nilson Marques Jr.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Abandono etílico
O último gole já não arde.
Lava a consciente debilidade humana.
Seria doença se não fosse o sono
ou o abandono que aos urbanos agride.
Um poço humano esquecido
por inúmeras utopias vencido.
Do concreto fez sua cama.
Corpo inchado, foi-se a pele fez-se escamas.
Palavras atropeladas no etílico ofício.
Tem seu sindicato como abrigo.
Come poeira pela manhã, o almoço
é o lanche rejeitado, mas tem na cachaça
seu feijão diário.
Nilson Marques Jr.
Lava a consciente debilidade humana.
Seria doença se não fosse o sono
ou o abandono que aos urbanos agride.
Um poço humano esquecido
por inúmeras utopias vencido.
Do concreto fez sua cama.
Corpo inchado, foi-se a pele fez-se escamas.
Palavras atropeladas no etílico ofício.
Tem seu sindicato como abrigo.
Come poeira pela manhã, o almoço
é o lanche rejeitado, mas tem na cachaça
seu feijão diário.
Nilson Marques Jr.
Destino
A noite corria no asfalto
longe das estrelas, diluindo o cheiro da maresia.
Silêncio violado pelos pontos de luz dos puteiros empoeirados.
A pressa anseia por descanso.
O café quase frio lava a garganta cansada.
Aos cheiros que perderei eu escrevo.
Cruzes cumprimentam timidamente nossa passagem.
Seguimos acumulando nomes de cidades e
fantasias para moer as horas.
A rota vai se concluir numa amálgama
de sensações revisitadas.
Consumir sonhos desgastados por sonhos inusitados.
O clamor do dia volta em outro hemisfério da alma.
E deu uma vontade arretada de rir.
Nilson Marques Jr.
longe das estrelas, diluindo o cheiro da maresia.
Silêncio violado pelos pontos de luz dos puteiros empoeirados.
A pressa anseia por descanso.
O café quase frio lava a garganta cansada.
Aos cheiros que perderei eu escrevo.
Cruzes cumprimentam timidamente nossa passagem.
Seguimos acumulando nomes de cidades e
fantasias para moer as horas.
A rota vai se concluir numa amálgama
de sensações revisitadas.
Consumir sonhos desgastados por sonhos inusitados.
O clamor do dia volta em outro hemisfério da alma.
E deu uma vontade arretada de rir.
Nilson Marques Jr.
Das dores a necessidade.
Levou sobre si suas histórias.
sem provas dos acontecidos
dançava entre tropeços e solidão.
Vestia cada nome repetido,
vidas repartidas em
estrutura fantasiosamente palpável
causando desequilíbrio nas calçadas
onde repousa a última lágrima,
até os olhos perderem os motivos.
Se alimentando do prato ofertado, retribui
o agrado com versos sutis, mastigando as palavras,
engolindo com a carne todo destino comum.
Seus mal-assombros de estimação,
seus meninos pagãos, seus cônegos
amados por moças audazes, que por amar
eram malditas.
Foge por entre os dentes o lastro sortido
de acontecimentos distantes.
Pela pele se sabe que jamais desatou
da terra encarnada, mas são suas
as florestas e as rezas.
Nada que se contava se afastava do seu cheiro.
Dele todas as dores e desilusão.
Ações heroicas que levava a ausência de tudo,
cemitérios ora no céu noutras em Geena,
como quem desiste da realidade coletiva
se atém a outra mais profunda.
Lapidada por um tempo partido
onde os Santos desciam e o benziam.
mantinha íntima afeição com sábios
velhos a África que, segundo sua fábula,
as vezes se desentendiam com outros
velhos sábios com feição dos bichos de nossa fauna.
Virava ave agoureira quando ninguém o via.
Lambia as moças bêbadas nos cabarés,
riscava punhal contra o peito na luta fria
da ausência quando a realidade estranha lhe vencia
e punha suas vivências a se desfazer,
mas por orgulho sonha e se redime.
Quando as casas silenciam ele caminha,
parecido com palavras sobre linhas.
Caminha como quem se embriaga,
encantado,
as vezes salta em jornal sensacionalista.
Já o vi gangrenar o tempo, já o vi em verso sem autoria.
Nilson Marques Jr.
sem provas dos acontecidos
dançava entre tropeços e solidão.
Vestia cada nome repetido,
vidas repartidas em
estrutura fantasiosamente palpável
causando desequilíbrio nas calçadas
onde repousa a última lágrima,
até os olhos perderem os motivos.
Se alimentando do prato ofertado, retribui
o agrado com versos sutis, mastigando as palavras,
engolindo com a carne todo destino comum.
Seus mal-assombros de estimação,
seus meninos pagãos, seus cônegos
amados por moças audazes, que por amar
eram malditas.
Foge por entre os dentes o lastro sortido
de acontecimentos distantes.
Pela pele se sabe que jamais desatou
da terra encarnada, mas são suas
as florestas e as rezas.
Nada que se contava se afastava do seu cheiro.
Dele todas as dores e desilusão.
Ações heroicas que levava a ausência de tudo,
cemitérios ora no céu noutras em Geena,
como quem desiste da realidade coletiva
se atém a outra mais profunda.
Lapidada por um tempo partido
onde os Santos desciam e o benziam.
mantinha íntima afeição com sábios
velhos a África que, segundo sua fábula,
as vezes se desentendiam com outros
velhos sábios com feição dos bichos de nossa fauna.
Virava ave agoureira quando ninguém o via.
Lambia as moças bêbadas nos cabarés,
riscava punhal contra o peito na luta fria
da ausência quando a realidade estranha lhe vencia
e punha suas vivências a se desfazer,
mas por orgulho sonha e se redime.
Quando as casas silenciam ele caminha,
parecido com palavras sobre linhas.
Caminha como quem se embriaga,
encantado,
as vezes salta em jornal sensacionalista.
Já o vi gangrenar o tempo, já o vi em verso sem autoria.
Nilson Marques Jr.
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