sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Da invasão

Entro pelas horas que a noite comporta
Como quem procura uma fotografia,
Um cacho de cabelos da infância ou
A voz que embalava o antes do sono
Porque o sono é ausência e se me
Deito sobre a superfície confortável
Do dia vencido o faço como um
Exercício de abandono.
Não uso os pés pesados tampouco
A blindagem do automóvel. Invado
O negror com a alma ou com o
Que penso ser alma. Ou com a
Desapropriação do corpo.
E é essa forma feia a apalpar
O frio do vazio. São tantas vozes,
Diferentes em idioma. Como que
Vomitadas por uma única boca.
Não é minha. Finjo conhecer, mas
Quem sou eu pra entender de gente?
Esses seres vivos e inúteis em sua
Maioria. Os quais não sabem das dores de
Cabeça que me tiram o sono e me empurram
A escrever os versos frágeis do papel
Prestes a ir ao fogo. Eles sabem de tudo
Porque não me conhecem. Eu e a noite
Somos absurdamente insignificantes.
Tenho esse medo a cada esquina passada.
Não temo meu medo. O meu fica por dentro
E é intocável. Meu. Se for meu é ridículo
E ficará isolado. Essa falta de rima no meu sotaque erra a canção imaginada.
O dia se apresenta determinante.
Vai acabando com tudo o maldito!
Sinto as coceiras dos mendigos
E me sento na praça para admirar
Sua paciência de monge.
Como se a paz estivesse na sujeira
E no fedor da pele dos meus amigos.
Entre eles não há corrupção.
E são inocentes sendo eu o culpado
Das desgraças porque sou humano
E os mendigos e os índios e os povos
Isolados de lugares que admiro por não
Conhecer. Nem vítimas nem culpados.
Meto a mão esquerda no bolso do sujeito
Sujo que dorme. Retiro notícias belas,
Histórias inventadas que a gente se
Põe a acreditar. Porque o mundo
Cabe dentro da noite e o tempo
É indeterminado. Em cada parágrafo
Um pedaço de mim, de dentro, fica
Exposto. Cada nervo, e artéria ferida
Me sinto mais vivo. Percebo ao fim
De tarde, sob um por de sol imaginado,
Que tudo isso não ultrapassou de um
Lapso de imaginação.
E continuo a caminhar pensando
Na morte e na velhice e na maneira
Mais patética de apresentar meus versos.
E por serem meus são pobres e feios
Como o mendigo morador do batente
Da loja de eletrodomésticos.
Então o calor arde nos olhos até
O esquecimento me fazer sentir
Novamente vontade de sorrir.

Nilson Marques Jr.