sábado, 3 de fevereiro de 2018

Abandono etílico

O último gole já não arde.
Lava a consciente debilidade humana.
Seria doença se não fosse o sono
ou o abandono que aos urbanos agride.

Um poço humano esquecido
por inúmeras utopias vencido.

Do concreto fez sua cama.
Corpo inchado, foi-se a pele fez-se escamas.
Palavras atropeladas no etílico ofício.
Tem seu sindicato como abrigo.
Come poeira pela manhã, o almoço
é o lanche rejeitado, mas tem na cachaça
seu feijão diário.

Nilson Marques Jr.

Destino

A noite corria no asfalto
longe das estrelas, diluindo o cheiro da maresia.
Silêncio violado pelos pontos de luz dos puteiros empoeirados.

A pressa anseia por descanso.
O café quase frio lava a garganta cansada.
Aos cheiros que perderei eu escrevo.
Cruzes cumprimentam timidamente nossa passagem.

Seguimos acumulando nomes de cidades e
fantasias para moer as horas.
A rota vai se concluir numa amálgama
de sensações revisitadas.

Consumir sonhos desgastados por sonhos inusitados.
O clamor do dia volta em outro hemisfério da alma.
E deu uma vontade arretada de rir.

Nilson Marques Jr.

Das dores a necessidade.

Levou sobre si suas histórias.
sem provas dos acontecidos
dançava entre tropeços e solidão.

Vestia cada nome repetido,
vidas repartidas em
estrutura fantasiosamente palpável

causando desequilíbrio nas calçadas
onde repousa a última lágrima,
até os olhos perderem os motivos.

Se alimentando do prato ofertado, retribui
o agrado com versos sutis, mastigando as palavras,
engolindo com a carne todo destino comum.

Seus mal-assombros de estimação,
seus meninos pagãos, seus cônegos
amados por moças audazes, que por amar
eram malditas.

Foge por entre os dentes o lastro sortido
de acontecimentos distantes.
Pela pele se sabe que jamais desatou

da terra encarnada, mas são suas
as florestas e as rezas.

Nada que se contava se afastava do seu cheiro.
Dele todas as dores e desilusão.
Ações heroicas que levava a ausência de tudo,

cemitérios ora no céu noutras em Geena,
como quem desiste da realidade coletiva
se atém a outra mais profunda.

Lapidada por um tempo partido
onde os Santos desciam e o benziam.
mantinha íntima afeição com sábios

velhos a África que, segundo sua fábula,
as vezes se desentendiam com outros
velhos sábios com feição dos bichos de nossa fauna.

Virava ave agoureira quando ninguém o via.
Lambia as moças bêbadas nos cabarés,
riscava punhal contra o peito na luta fria

da ausência quando a realidade estranha lhe vencia
e punha suas vivências a se desfazer,
mas por orgulho sonha e se redime.

Quando as casas silenciam ele caminha,
parecido com palavras sobre linhas.
Caminha como quem se embriaga,

encantado,

as vezes salta em jornal sensacionalista.
Já o vi gangrenar o tempo, já o vi em verso sem autoria.

Nilson Marques Jr.   

Capuccino




O Sabor do não acontecido
está reservado nesta xícara.
Diante de mim não é o calor
que me arde os dedos ou o creme
a envolver meus lábios.

Está na língua das idéias
as histórias aguardadas, e
Porque Ser justo a minha dentre
tantas a se desenvolver fora do que
                                                      [é crença?

No outro espaço, logo a frente
um casal come e bebe. Minha imaginação
lhes dá possibilidades muito mais belas
(pois sou eu quem as imagino.)

Nada tenho senão
a vontade de um verso
sangrando vidas em postas, e que
levem um pouco de  mim
em seus cabelos, por baixo
das unhas, no sentido da língua.

Estou só
A vida inteira indivisivelmente
retida em goles mornos que, avulso,
absorvo automático.

Me pesa a ausência da poesia pelas ruas.
E lamento pela música que se extraviou.

A beleza está ausente.
A coragem está ausente.
Formas delicadas e Femininas se embrutecendo.
Meu Deus, A Minha fé também está ausente!

- Outra xícara, por favor!

Aumento o tom da voz
Para Ser lembrado E aogra
um cachorro se aproxima.

Volta minha alegria nos olhos 
do animal, me sinto feliz.
Se deita aos meus pés

e meu coração não o compreende.

Meu coração é um senhor do século XVIII
vendedor de tecidos. Meu coração é
meu conflito. Discutimos a didática
inútil da solidão.

Nilson Marques Jr.

     

Certa Idade.

A gente alcança certa idade
em que vê ou não vê o amor em tudo.
Compreendendo quando é desespero;

Bala avulsa sem partida ou chegada.
A língua ácida cansada de militância
repousa anestesiada sobre outra.

A gente cansa em certa idade
das mentiras para poder, na pobreza,
imaginar o que é toque, entrega, distância.

Abrupto fulgor esplêndido ou
o que poderia ser isto!
Ver-se a mulher amada dormir enquanto

uma guerra acorrenta a Líbia,
se arrebenta a corda grave do violão
desafinado e ninguém percebeu.

Não querer amar é como tecer fé
a um deus nas mãos de um semideus.
Amar vencido amor e basta!

Chegará certa data que o tempo
ficará suspenso na folhinha de calendário
e o corpo se manterá como um consequência

de Saveiros cansados e apodrecerá
em gestos esquecidos em lembranças e devaneios.

Chega determinada partilha da vida
onde a pele cansada é velada
para o túmulo das palavras desprezadas.

Palavras-beijos, palavras-orgarmos
do sabor da mulher eternal
a escorregar no canto do vigor fenecido.

Embriaguez revisitada
em silhuetas de memória
e as pernas a acolher
gemidos em estado dicionário,
fogem por necessidades abandonadas.

Chegamos a certo instante da vida
onde tudo é aceitável: Amar não Amar
Amar não Amar grita meu peito no vazio do agora.

Nilson Marques Jr.

Das Confissões

Minhas memórias se misturam, confesso.
É a idade da saúde que se afasta.
De tanto viver, já não me sopra o desejo
pelo beijo noviço das carnes que já não possuo.

Pois bem. A gente se dilata na solidão
enjeitada e na debilidade etílica, eu
já não sei o que seria um e outro.
Poderia ter manifestado o amor
como coisa sólida que se lança
de uma janela à outra e sobe o clarão e apito.
Urgência! não tive.

O amor era distante e velho, hoje tem
câimbras enquanto repousa em minha sombra.
Tirei vida de corpo humano,
lutei em luta cabível de derrota e venci.
Vitória que separava lascas de minha alma
e foram distribuídas nos becos do meu coração.

Não por justiça, sim vingança.
Homem sem vingança digna deve se ater
ao silêncio dos músculos. Formidável textura de delírios,
vinho de minhas sensações,
loucura líquida de minha língua!

Nunca fui grande coisa.
Não conheço nenhum homem que o tenha sido,
exceto aqueles distantes, aqueles que se inventam,
sem parto nem pai, apenas virtudes.

Fui amado, e tem tempo.
Em toda confissão cabe o amor, mais que
sua ausência. Porque ausência do amor é
altruísmo que não tive. O tempo levou aos punhados
os propósitos das cores.
Ficou o amarelo dos dentes, que resistem.

Já não me incomodo de muita coisa
e tudo me provoca um grande tédio.
Até as gentes que se entrelaçam
são peças de coisas que contamos ao fim.
Em cada canto que estive pude me dar a
mim mesmo um novo nome e personalidade.

Puxei rede, montei à cavalo, dei esmolas,
comi a sopa da noite, visitei cabarés,
beijei a mão do clérigo

e

tudo isso se soma ao nada.
Talvez alguém se lembre e sinta fúria de mim.
Seria bom saber, mas o que sei senão
minhas memórias vagas e recriadas pra dentro de mim?

Eu, homem confuso, homem turvo que não se reconhece
ante a textura reflexiva e sente as veias se encontrar com
as tremidas dos nervos entre ossos.

A moça me trouxe o mingau.
Nunca sorri. O prato esmaltado queima meus dedos.
- Um dia ainda como essa mulher!

Nilson Marques Jr.