quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Queimaduras



É no tempo que os homens se diluem.
são todos um, em cada poça de provocações
se espalham e já não se reconhecem.

As datas comemorativas acumulam morte,
inferiorizam o instante, sob a casaca velha 
que herdamos por um parente que fechou os olhos

em algum campo de concentração ou teve o corpo
incinerado pela dor de qualquer coisa sem sentido para quem
não sente. E deixou um sobrenome e a marcação estranha no caminhar.

Aqueles que conheço não me são tão importantes
quanto aqueles que não conheço, menos ainda daqueles
que desconheço. Eu olho a todos com os olhos feridos

por minhas impressões e já concluo a anulação do homem
sobre as coisas. Não há cor nos olhos, na pele nos cabelos.
Mas a comunicação pede o auxílio dela.

Se falo de mim ou por mim, só o faço por não poder ser outro!
Estou fechado ao que invento e para onde eu for encontrarei a mim sempre e como me pesa tal condição!

Por conhecer minhas angústias, debilidades, e quanto mais entendo
mais me sinto como um cão em voltas atrás do rabo.
Quisera ser doido, doido de rua por querer, por vontade pulsante
própria. bater em quem passa com a aval da loucura.
Cantar alguma música antiga cuspindo a poesia morta
sem que o ridículo da razão me açoite.

Ou não sentir o peso da depressão no auto isolamento.
Não acredito que um doido possa ter depressão, e imaginar isso
me faria um louco acima do que a razão propõe e não abaixo.
Escrever uma biografia sobre mim, sobre o vizinho e lhe dando o meu nome. E para que servem os nomes?

Para mim tudo é bicho, tudo é gente e tudo é ausência.

A imensidão das coisas, como é linda.

Tênue linha que nos separa, diálogo infinito que descamba
para o nada. Estamos separados em nosso tempo. Todos.
Estamos aturdidos com tanta podridão e com a carne que resiste!

Nunca se aguardou tanto pela destruição. O apocalipse.
A vida fora da vida. Nunca o ser humano se alimentou tanto da própria carne. Que resiste, insiste. É a distância entre os homens que nos deixa tão similares.


Nilson Marques Jr.