domingo, 23 de setembro de 2012

Resistência


A distancia era o que mais nos aproximava:
Adquirir do longe o que nunca se teria perto.
E a distancia qual media a nós, hoje é a reverberação
do vazio dentro do vazio, engolindo as lembranças e vomitando insônia e uma vontade
lacinante de não ser quem se é.
.
Que ao menos uma cantiga resista
a esse penar entranhável na  carne debulhada,
hoje sem qualquer serventia, é o tátil do nada.
Miserável poesia que não me larga!
Como deve ser bom não ter razão, e cheirar perfumes, logo esquecendo e voltar a senti-los
a razão está em ti, estás certa em tudo quanto pondes a fazer.
Era o verso acusador, erra minha carne, está carne que não estanca nem cessa seu sangrar.

Nilson Marques Jr.

Na ruptura das coisas


Na ruptura das coisas
entendi que estive na hora errada,
no lugar certo. Tomei para mim artigos indevidos:
.
Segredos discretos, gozos incertos
declarações de plástico, imagens sonegadas,
um punhado de esperança demantelada.
.
Como um ladrão enchi meus olhos de tudo
que não havia e me adornei da livre expressão
do engano.
.
Esses meus olhos contemplam o vasto
cemitério e suas covas vazias, amontoa-se
de ossos os meus versos desmedidos.
Adiante o silêncio adentra
.
convidado pelo cheiro da mortandade
que me vesti na vã alegria de ser quem sou:
Este cemitério desabitado, carne putrefata e a cova rasa.

Nilson Marques Jr.

Poema de ciranda (conto de eras)

Quando não me custava entender
qualquer coisa e o mais complexo do dia
eram os nós dos cadarços.
.
Tu eras a menina amostrada
de fitas rosas e azuladas
que se ria de minha ausente beleza.
.
Já distante tais conflitos, eras tu
a amiga imaginária de meus banhos prolongados
e se apresentava em murchas noites no solo de meu recato.
.
Chegada a fase dos bailes, eras tu
que rejeitava mil convites, e múltiplos
desejos se entrelaçavam ao meus nervos
.
Pois tu eras a moça jamais tocada
porém cantada nas músicas melancólicas
que só os alforriados dos olhos teus podem cantar.
.
E quando o peso do sono perturbava era sobre ti
que eu confessava, menino pecador, cobiçando 
o que não se pode saber.
.
E foi no exército que novamente te encontrei.
das revistas que circulavam tu eras todas
as moças desejáveis, e posavas nua 
.
como num passeio em flores
e eu via nos teus olhos impressos
a costumeira rejeição para mim reservada.
.
E tu eras todas as mulheres que amei,
e tu eras todas as mulheres que não amei,
e tu eras aquela mocinha do cinema: amada do mocinho
pensando no bandido.

Nilson Marques Jr.

Canção destemperada


Quando lembro não busco recordar
faço casualmente, como um tropeço na calçada
no bucado que costumeiramente tropeço.
.
Mas esses teus olhos são dois rebanhos de anjos
prestes a cair, como caem os frutos dos quintais de minha infância
Eu fico sentado admirando tais lembranças e nem sei se são minhas
.
ou se existiram, pois são os mesmos anjos bêbados e sujos de tanto
que caem das nuvens, deslizam sobre os planos que desfiz
São esses anjos, dois rebanhos com mais de mil anjos,
.
Fazendo arribação sobre minha alma
e se eu tivesse alma não saberia, mas tenho versos
e a liberdade pra fingir que não me vejo ali no meio
.
Eu sou um daqueles anjos sem-vergonhas
sem calças e sem asas perambulando
destrambelhado, fazendo rima de tuas retinas com minhas fantasias.

Nilson Marques Jr.