sexta-feira, 2 de maio de 2014
Por Dentro
Dentro das casas
onde as frestas iluminam
muito mais do que a esperança
Dorme como quem vigia
o velho homem, ainda na infância
que se cobre com falsas notícias
e sobre as telhas das outras casas
umas folhas secas ficam esquecidas
de árvores estranhas: o nome do pai
o sangue da mãe, o suor do avô
a dor dos tataravós. E quem se preocupa
em limpar a calha entupida?
Se ao menos acordasse de verdade o velho
e o homem não fosse dado ao auto-abandono
talvez assim valesse a pena e as plumas
dos dias que se vem, sopram de onde não se sabe.
Mas virão, está na carne que virão. está
no cheiro da pólvora que virão.
Conta-se em sussurros os principais eventos da vida:
Um assassinato, uma poesia, um medo em recato,
o hálito das eras...
Das pedras erguidas, no concreto da alma
bocas se amontoam sem saber o que as calam.
É a sede filtrando a superfície das coisas.
A fé está nos calos das mãos e nas poucas
palavras dos lábios. A força se firma no arrepio
das despedidas, e o tempo do choro verdadeiro
só tem boa aparência no cinema.
Nas telas apodrecidas, nas roupas
que guardam o pouco de carne que a sustente.
Não são as aves, nem as crianças, nem os versos,
nem o mar, nem o haver, nem as cores, nem a arte
que precisa de amor. São aqueles estranhos seres
que se estranham ao toque pessoal,
que possuem um diálogo industrial
que não sabem mais o que é sangrar
e mesmo quando sangram desconhecem
o fenômeno. São esses seres comuns
que se distanciam sob a mirrada cor
das coisas puramente simples
a que a alma, se por ela ou fora dela
cuidadosamente se declara: entregue.
Nilson Marques Jr.
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