terça-feira, 3 de julho de 2012

Poema de perdição

É o fim do verso, é o tempo desmedido
a covardia embrulhada e as malas do foragido.
A última história a ser contada, e outras tantas
esquecidas. A tatuagem apagada, e a noite mal dormida.

... Acúmulos de horas vãs, e a espera do tudo que há no mundo
o estampido no quarto de luxo e a puta satisfeita por ser puta.
A boca do delírio amordaçada pela ansiedade, e a criança adormecida
são os olhos claros de cegueira, e a escuridão dos sentidos à mostra.

O jornal velho na parede de recordação e a chuva ultrapassando
telhas. São assombros e assobios, são pés quebrados e sonhos espalhados.
São esses gestos descontrolados, e o soco a ferir lábios.
São as crianças na possibilidade de nudez e o idoso espancado,
sol repousando sobre janelas e o frio da comunicação.
É a tela inacabada e o estúpro concentido, a boca da moça
que brota um filete de riso e o afogado da enchente.
...
Essas coisas do dia a dia e o olhar sobre a natureza morta do que se vê
É o fim do verso, meu amigo. É o fim do verso. A bela música cantada
em língua morta, são os soldados deserdados e a peste bubónica no Vaticano.
Essa vontade de vomitar o que o outro comeu, esse cheiro bom de carne morta
no prato da miséria, são esses passarinhos pipilando em minúsculas gaiolas

É essa hora inútil, esses bêbados, esses marujos flamulando minhas rimas pobres
A lembrança da sala de aula, e o filho que foi partido ao meio. É o dia em da troca
da beleza de um poema por uma dose de cicuta sorvida enquanto Narciso se masturba no banheiro do bar. É a mutilação da luz, e trevas e trevas e trevas
a romper o sono. São as pequenas coisas a tilintar na pele.

Nas rugas do sentimento a poesia se esconde, malígna beleza!
É o indgente a ser dissecado, o mesmo nome feminino dado a coisas belas,
o Esquecimento, a Náusea e a Fome.

Nilson Marques Jr.

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