terça-feira, 16 de outubro de 2018
07:30 em Farrapos.
Cartazes amontoados sobre paredes mortas.
Anúncios de confraternizações que nunca participarei.
Na avenida macia a borracha passeia calmamente enquanto meus olhos
Registram instantes que logo esquecerei e serão avivados em outro lugar,
Montando um relato que só existiu por dentro de mim.
As criaturas da noite cambaleiam sisudas entre resmungos e lixo que o vento leva.
O hálito da hora se confunde com o bafo da tragada e os travestis negociam com
Os taxistas, talvez, uma última viagem?
Praças se estendem por onde o nome alcança. Flores da estação giram sem rumo
Como se uma gota divina despencasse sobre o monóxido de carbono e são cerejas,
amoras, abacates abrigando o cobertor grosso que abriga o homem abraçado a seu cão
que respira suave com olhar alerta.
Construções antigas saúdam as construções novas como quem oferta memória.
Surgem loucos nas esquinas armados de copo plástico e café.
Recitam indecências, balbuciam a sintaxe que se atropelam na ânsia por
Vomitar algo que jamais saberei e aí está o meu alumbramento.
Ruas escoam fadiga, risadas de moças eufóricas e pernas desalentadas.
Sento em um banco de concreto para assistir a disputa dos sabiás, pergunto as horas
Ao andrógeno que encerra seu turno: 07:30
Agradeço. Refaço o destino para as próximas horas como se tivesse qualquer controle.
Escuto atentamente as histórias da pessoa, compartilhamos risadas. Pergunto novamente as horas:
- Meu Bruxo, no meu relógio é sempre 07:30.
Nilson Marques Jr.
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