sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Encontro

   Era realmente um homem feio. Traços másculos voz grave e firme, sujeito a quem o vinham na expectativa de violência. Poucos o conheciam, e era conhecido como O Feio. Ao espelho da memória, condenado por dedos em riste e zombarias companheiras desde a infância, o faziam entender e achar graciosa a falta de beleza.

Dois momentos de sua vida influenciavam sua mente de homem: esse homem ora exilado de afeto ora desejado expositiva e ocultamente contrastavam a realidade que ele mesmo havia se habituado quando algo assim ocorria não se via ele, mas um outro como se ele fosse um adereço para o curso do desejo.

Nesta outra realidade ele conseguia se auto analisar, sem pesares. Esperava atentamente ver o copo ser erguido por ele mesmo na padaria em frente de onde se encontrava agora. Era um café quente, quase sentia o gosto e o dedo arder pelo calor do copo. Não haviam dúvidas de que aquele homem comum, do outro lado, era ele mesmo. Pessoas sentavam ao lado, participando de uma refeição sem o menor entendimento entre si, como se todos fossem objetos incomunicáveis. Certa aflição tomou conta de seus sentidos, poderia ir até lá e iniciar um diálogo, porém com que objetivo? O outro entenderia sua aproximação e será que ele também o reconheceria? Eram questionamentos rodopiando em sua mente fervilhante. Outras circunstâncias o impediam de ir até lá, essas ele não sabia das nomes, era um homem, comum cidadão, sem nada de grande interesse.

O suor frio desenhava sua testa e as mãos tremiam, era espantoso ver-se noutro e em aspectos tão diferente:
"- Nem gosto de café", pensou. Logo terminado o homem saiu, e caminhou por duas longas ruas, completamento afastado dos demais transeuntes, ele foi até certo conjunto empresarial entrou e rapidamente saiu. Rapidamente não significa que foi imediato, cerca de duas horas depois, mas a sensação era de poucos minutos. O Feio tentava despistar seu interesse até por motivo machista pois sentia que deveria estar ocupado nalguma mulher e não num homem mesmo que esse homem fosse ele mesmo perambulando por aí. e ele sabia bem o que é não ser buscado pois tudo o que não salta ao questionamento alheio se torna desprezível e era assim que se sentia.

Já eram horas e horas envolvidas em ligações, encontros, quase atropelo, mais comida de rua, abraços e um encontro marcado. "- Como poderia eu ser ele?", Voltava a se questionar, pessoas tão diferentes e apenas ele acreditava nisso pois o outro nem mesmo lhe notou durante todo o dia. Ele se sentiu abatido e confuso, mais ainda porque sua feiura era atrativo de olhares, mas agora ele simplesmente sumiu.

Dias e dias passavam corridos e constantes e aquele homem mostrou uma vida agitada e convidativa. Depois de quase uma semana Feio decidiu ir até ele. Sua vontade era de esmurrar o homem e em outros momentos de falar sobre ele mesmo para que o homem aceitasse que eram a mesma pessoa.

O homem estava em todos os lugares, ele não conseguia se libertar disso. Pensou em morte e se era possível alguém ser tão feliz quanto ele era naquele homem. Viu que era amado, e que o seu apartamento não era solitário, e quando olhava para si, Feio fazia grande esforço para lembrar o endereço de sua casa.
Chegou ao ponto onde não poderia passar dali. Era hora do encontro. Noite de sexta, comecinho de noite, tempo perfeito. Feio o aguardou em frente a guarita e nada do homem descer. As luzes foram acesas. Mesmo sem estar lá Feio sabia quais foram acesas e o que o homem estava fazendo. Isso foi deixando ele nervoso, mais ainda. Nada do homem descer, e Feio sabia que ele não desceria. Talvez por ter tamanha certeza disso é que ele decidiu fazer o encontro nesse dia e tempo. O frio da noite foi aumentando e o cansaço também. Deu umas voltas para não chamar a atenção, o que não era necessário pois o Feio não era notado ou esperado, segundo o que ele mesmo pensava de si, como o Feio.


Certa melancolia e angústia o envolveu de maneira tão assustadora que se viu apavorado e se sentindo sem saída. O homem, isto é, ele mesmo, no apartamento, trancou todas as portas, desligou celulares interfone e telefone. Apenas as luzes o representavam. Os movimentos cessaram. Feio ficou preocupado, aterrorizado! E tamanho foi o pavor que ele caiu sem forças sendo rapidamente socorrido por um morador que iria iniciar uma caminhada. O rapaz se mostrou muito atencioso, e lhe deu um pouco da água que levava, quase forçando o Feio a beber. O bom samaritano notou os olhos e nariz vermelhos e questionando algum número de amigo ou familiar dele para um atendimento hospitalar. O que não conseguiu, feio não tinha ninguém para conversar senão ele mesmo que continuava trancado no apartamento. Era muito para um peito de homem suportar, mesmo sendo o peito do Feio não conseguiria suportar as dores de ser duas vezes ele mesmo.
Seus olhos embaçados viram o samaritano o erguer e desejar uma conversa, ele disse que o estava vendo desde cedo e estava curioso em conhecê-lo. Nesse momento um silêncio pesou sobre a noite, nenhuma sirene ou grito ou qualquer som foi percebido. Um abraço selou o agradecimento e o sentimento de dever cumprido. Cabeça baixa e ainda zonzo Feio foi caminhando e algumas lembranças que não eram suas foram aparecendo a sua mente. Certo assalto e medo e dois tiros e uma mulher morta. Ele parou olhou fixamente nos olhos do seu "samaritano" e era como se ele esperasse por esse olhar do Feio. Feio entendeu muito mais do que gostaria e voltando para sua despedida a cabeça não estava mais voltada para o chão. Dobrou a esquina e as luzes do apartamento foram apagadas.

Nilson Marques Jr.     



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