A gente alcança certa idade
em que vê ou não vê o amor em tudo.
Compreendendo quando é desespero;
Bala avulsa sem partida ou chegada.
A língua ácida cansada de militância
repousa anestesiada sobre outra.
A gente cansa em certa idade
das mentiras para poder, na pobreza,
imaginar o que é toque, entrega, distância.
Abrupto fulgor esplêndido ou
o que poderia ser isto!
Ver-se a mulher amada dormir enquanto
uma guerra acorrenta a Líbia,
se arrebenta a corda grave do violão
desafinado e ninguém percebeu.
Não querer amar é como tecer fé
a um deus nas mãos de um semideus.
Amar vencido amor e basta!
Chegará certa data que o tempo
ficará suspenso na folhinha de calendário
e o corpo se manterá como um consequência
de Saveiros cansados e apodrecerá
em gestos esquecidos em lembranças e devaneios.
Chega determinada partilha da vida
onde a pele cansada é velada
para o túmulo das palavras desprezadas.
Palavras-beijos, palavras-orgarmos
do sabor da mulher eternal
a escorregar no canto do vigor fenecido.
Embriaguez revisitada
em silhuetas de memória
e as pernas a acolher
gemidos em estado dicionário,
fogem por necessidades abandonadas.
Chegamos a certo instante da vida
onde tudo é aceitável: Amar não Amar
Amar não Amar grita meu peito no vazio do agora.
Nilson Marques Jr.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Das Confissões
Minhas memórias se misturam, confesso.
É a idade da saúde que se afasta.
De tanto viver, já não me sopra o desejo
pelo beijo noviço das carnes que já não possuo.
Pois bem. A gente se dilata na solidão
enjeitada e na debilidade etílica, eu
já não sei o que seria um e outro.
Poderia ter manifestado o amor
como coisa sólida que se lança
de uma janela à outra e sobe o clarão e apito.
Urgência! não tive.
O amor era distante e velho, hoje tem
câimbras enquanto repousa em minha sombra.
Tirei vida de corpo humano,
lutei em luta cabível de derrota e venci.
Vitória que separava lascas de minha alma
e foram distribuídas nos becos do meu coração.
Não por justiça, sim vingança.
Homem sem vingança digna deve se ater
ao silêncio dos músculos. Formidável textura de delírios,
vinho de minhas sensações,
loucura líquida de minha língua!
Nunca fui grande coisa.
Não conheço nenhum homem que o tenha sido,
exceto aqueles distantes, aqueles que se inventam,
sem parto nem pai, apenas virtudes.
Fui amado, e tem tempo.
Em toda confissão cabe o amor, mais que
sua ausência. Porque ausência do amor é
altruísmo que não tive. O tempo levou aos punhados
os propósitos das cores.
Ficou o amarelo dos dentes, que resistem.
Já não me incomodo de muita coisa
e tudo me provoca um grande tédio.
Até as gentes que se entrelaçam
são peças de coisas que contamos ao fim.
Em cada canto que estive pude me dar a
mim mesmo um novo nome e personalidade.
Puxei rede, montei à cavalo, dei esmolas,
comi a sopa da noite, visitei cabarés,
beijei a mão do clérigo
e
tudo isso se soma ao nada.
Talvez alguém se lembre e sinta fúria de mim.
Seria bom saber, mas o que sei senão
minhas memórias vagas e recriadas pra dentro de mim?
Eu, homem confuso, homem turvo que não se reconhece
ante a textura reflexiva e sente as veias se encontrar com
as tremidas dos nervos entre ossos.
A moça me trouxe o mingau.
Nunca sorri. O prato esmaltado queima meus dedos.
- Um dia ainda como essa mulher!
Nilson Marques Jr.
É a idade da saúde que se afasta.
De tanto viver, já não me sopra o desejo
pelo beijo noviço das carnes que já não possuo.
Pois bem. A gente se dilata na solidão
enjeitada e na debilidade etílica, eu
já não sei o que seria um e outro.
Poderia ter manifestado o amor
como coisa sólida que se lança
de uma janela à outra e sobe o clarão e apito.
Urgência! não tive.
O amor era distante e velho, hoje tem
câimbras enquanto repousa em minha sombra.
Tirei vida de corpo humano,
lutei em luta cabível de derrota e venci.
Vitória que separava lascas de minha alma
e foram distribuídas nos becos do meu coração.
Não por justiça, sim vingança.
Homem sem vingança digna deve se ater
ao silêncio dos músculos. Formidável textura de delírios,
vinho de minhas sensações,
loucura líquida de minha língua!
Nunca fui grande coisa.
Não conheço nenhum homem que o tenha sido,
exceto aqueles distantes, aqueles que se inventam,
sem parto nem pai, apenas virtudes.
Fui amado, e tem tempo.
Em toda confissão cabe o amor, mais que
sua ausência. Porque ausência do amor é
altruísmo que não tive. O tempo levou aos punhados
os propósitos das cores.
Ficou o amarelo dos dentes, que resistem.
Já não me incomodo de muita coisa
e tudo me provoca um grande tédio.
Até as gentes que se entrelaçam
são peças de coisas que contamos ao fim.
Em cada canto que estive pude me dar a
mim mesmo um novo nome e personalidade.
Puxei rede, montei à cavalo, dei esmolas,
comi a sopa da noite, visitei cabarés,
beijei a mão do clérigo
e
tudo isso se soma ao nada.
Talvez alguém se lembre e sinta fúria de mim.
Seria bom saber, mas o que sei senão
minhas memórias vagas e recriadas pra dentro de mim?
Eu, homem confuso, homem turvo que não se reconhece
ante a textura reflexiva e sente as veias se encontrar com
as tremidas dos nervos entre ossos.
A moça me trouxe o mingau.
Nunca sorri. O prato esmaltado queima meus dedos.
- Um dia ainda como essa mulher!
Nilson Marques Jr.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Das Sombras
Das sombras do teu Corpo
eu faço insônia.
E te busco em sonhos que
se espalham em pedaços
soluçar sua força de meu delírio.
Na ausência do teu cheiro,
Que se apossava em gotas
Sobre minha carne, ficou este
acúmulo de solidões:
um lampejo de ilusão.
Pois Que minha alma solta
vaga a procura da tua.
no ofício de trazer teu gosto,
tua fome saciar Minha.
Nilson Marques Jr.
eu faço insônia.
E te busco em sonhos que
se espalham em pedaços
soluçar sua força de meu delírio.
Na ausência do teu cheiro,
Que se apossava em gotas
Sobre minha carne, ficou este
acúmulo de solidões:
um lampejo de ilusão.
Pois Que minha alma solta
vaga a procura da tua.
no ofício de trazer teu gosto,
tua fome saciar Minha.
Nilson Marques Jr.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Da invasão
Entro pelas horas que a noite comporta
Como quem procura uma fotografia,
Um cacho de cabelos da infância ou
A voz que embalava o antes do sono
Como quem procura uma fotografia,
Um cacho de cabelos da infância ou
A voz que embalava o antes do sono
Porque o sono é ausência e se me
Deito sobre a superfície confortável
Do dia vencido o faço como um
Exercício de abandono.
Deito sobre a superfície confortável
Do dia vencido o faço como um
Exercício de abandono.
Não uso os pés pesados tampouco
A blindagem do automóvel. Invado
O negror com a alma ou com o
Que penso ser alma. Ou com a
Desapropriação do corpo.
A blindagem do automóvel. Invado
O negror com a alma ou com o
Que penso ser alma. Ou com a
Desapropriação do corpo.
E é essa forma feia a apalpar
O frio do vazio. São tantas vozes,
Diferentes em idioma. Como que
Vomitadas por uma única boca.
Não é minha. Finjo conhecer, mas
Quem sou eu pra entender de gente?
O frio do vazio. São tantas vozes,
Diferentes em idioma. Como que
Vomitadas por uma única boca.
Não é minha. Finjo conhecer, mas
Quem sou eu pra entender de gente?
Esses seres vivos e inúteis em sua
Maioria. Os quais não sabem das dores de
Cabeça que me tiram o sono e me empurram
A escrever os versos frágeis do papel
Prestes a ir ao fogo. Eles sabem de tudo
Porque não me conhecem. Eu e a noite
Somos absurdamente insignificantes.
Maioria. Os quais não sabem das dores de
Cabeça que me tiram o sono e me empurram
A escrever os versos frágeis do papel
Prestes a ir ao fogo. Eles sabem de tudo
Porque não me conhecem. Eu e a noite
Somos absurdamente insignificantes.
Tenho esse medo a cada esquina passada.
Não temo meu medo. O meu fica por dentro
E é intocável. Meu. Se for meu é ridículo
E ficará isolado. Essa falta de rima no meu sotaque erra a canção imaginada.
Não temo meu medo. O meu fica por dentro
E é intocável. Meu. Se for meu é ridículo
E ficará isolado. Essa falta de rima no meu sotaque erra a canção imaginada.
O dia se apresenta determinante.
Vai acabando com tudo o maldito!
Sinto as coceiras dos mendigos
E me sento na praça para admirar
Sua paciência de monge.
Vai acabando com tudo o maldito!
Sinto as coceiras dos mendigos
E me sento na praça para admirar
Sua paciência de monge.
Como se a paz estivesse na sujeira
E no fedor da pele dos meus amigos.
Entre eles não há corrupção.
E são inocentes sendo eu o culpado
Das desgraças porque sou humano
E os mendigos e os índios e os povos
Isolados de lugares que admiro por não
Conhecer. Nem vítimas nem culpados.
E no fedor da pele dos meus amigos.
Entre eles não há corrupção.
E são inocentes sendo eu o culpado
Das desgraças porque sou humano
E os mendigos e os índios e os povos
Isolados de lugares que admiro por não
Conhecer. Nem vítimas nem culpados.
Meto a mão esquerda no bolso do sujeito
Sujo que dorme. Retiro notícias belas,
Histórias inventadas que a gente se
Põe a acreditar. Porque o mundo
Cabe dentro da noite e o tempo
É indeterminado. Em cada parágrafo
Um pedaço de mim, de dentro, fica
Exposto. Cada nervo, e artéria ferida
Me sinto mais vivo. Percebo ao fim
De tarde, sob um por de sol imaginado,
Que tudo isso não ultrapassou de um
Lapso de imaginação.
Sujo que dorme. Retiro notícias belas,
Histórias inventadas que a gente se
Põe a acreditar. Porque o mundo
Cabe dentro da noite e o tempo
É indeterminado. Em cada parágrafo
Um pedaço de mim, de dentro, fica
Exposto. Cada nervo, e artéria ferida
Me sinto mais vivo. Percebo ao fim
De tarde, sob um por de sol imaginado,
Que tudo isso não ultrapassou de um
Lapso de imaginação.
E continuo a caminhar pensando
Na morte e na velhice e na maneira
Mais patética de apresentar meus versos.
E por serem meus são pobres e feios
Como o mendigo morador do batente
Da loja de eletrodomésticos.
Então o calor arde nos olhos até
O esquecimento me fazer sentir
Novamente vontade de sorrir.
Na morte e na velhice e na maneira
Mais patética de apresentar meus versos.
E por serem meus são pobres e feios
Como o mendigo morador do batente
Da loja de eletrodomésticos.
Então o calor arde nos olhos até
O esquecimento me fazer sentir
Novamente vontade de sorrir.
Nilson Marques Jr.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Por Dentro
Dentro das casas
onde as frestas iluminam
muito mais do que a esperança
Dorme como quem vigia
o velho homem, ainda na infância
que se cobre com falsas notícias
e sobre as telhas das outras casas
umas folhas secas ficam esquecidas
de árvores estranhas: o nome do pai
o sangue da mãe, o suor do avô
a dor dos tataravós. E quem se preocupa
em limpar a calha entupida?
Se ao menos acordasse de verdade o velho
e o homem não fosse dado ao auto-abandono
talvez assim valesse a pena e as plumas
dos dias que se vem, sopram de onde não se sabe.
Mas virão, está na carne que virão. está
no cheiro da pólvora que virão.
Conta-se em sussurros os principais eventos da vida:
Um assassinato, uma poesia, um medo em recato,
o hálito das eras...
Das pedras erguidas, no concreto da alma
bocas se amontoam sem saber o que as calam.
É a sede filtrando a superfície das coisas.
A fé está nos calos das mãos e nas poucas
palavras dos lábios. A força se firma no arrepio
das despedidas, e o tempo do choro verdadeiro
só tem boa aparência no cinema.
Nas telas apodrecidas, nas roupas
que guardam o pouco de carne que a sustente.
Não são as aves, nem as crianças, nem os versos,
nem o mar, nem o haver, nem as cores, nem a arte
que precisa de amor. São aqueles estranhos seres
que se estranham ao toque pessoal,
que possuem um diálogo industrial
que não sabem mais o que é sangrar
e mesmo quando sangram desconhecem
o fenômeno. São esses seres comuns
que se distanciam sob a mirrada cor
das coisas puramente simples
a que a alma, se por ela ou fora dela
cuidadosamente se declara: entregue.
Nilson Marques Jr.
O Silêncio
Gosto do silêncio pois ele provoca
a genuína criação. Seja o silêncio das coisas,
das casas, do ventre.
A boca faminta devora sentenças
e sobre os ossos do caos a vida se reconstrói.
De si para onde não se sabe.
Como uma espiral de silêncio,
e a escuridão não é ausência
mas a estrutura real do que se espera.
Nilson Marques Jr
a genuína criação. Seja o silêncio das coisas,
das casas, do ventre.
A boca faminta devora sentenças
e sobre os ossos do caos a vida se reconstrói.
De si para onde não se sabe.
Como uma espiral de silêncio,
e a escuridão não é ausência
mas a estrutura real do que se espera.
Nilson Marques Jr
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Queimaduras
É no tempo que os homens se diluem.
são todos um, em cada poça de provocações
se espalham e já não se reconhecem.
As datas comemorativas acumulam morte,
inferiorizam o instante, sob a casaca velha
que herdamos por um parente que fechou os olhos
em algum campo de concentração ou teve o corpo
incinerado pela dor de qualquer coisa sem sentido para quem
não sente. E deixou um sobrenome e a marcação estranha no caminhar.
Aqueles que conheço não me são tão importantes
quanto aqueles que não conheço, menos ainda daqueles
que desconheço. Eu olho a todos com os olhos feridos
por minhas impressões e já concluo a anulação do homem
sobre as coisas. Não há cor nos olhos, na pele nos cabelos.
Mas a comunicação pede o auxílio dela.
Se falo de mim ou por mim, só o faço por não poder ser outro!
Estou fechado ao que invento e para onde eu for encontrarei a mim sempre e como me pesa tal condição!
Por conhecer minhas angústias, debilidades, e quanto mais entendo
mais me sinto como um cão em voltas atrás do rabo.
Quisera ser doido, doido de rua por querer, por vontade pulsante
própria. bater em quem passa com a aval da loucura.
Cantar alguma música antiga cuspindo a poesia morta
sem que o ridículo da razão me açoite.
Ou não sentir o peso da depressão no auto isolamento.
Não acredito que um doido possa ter depressão, e imaginar isso
me faria um louco acima do que a razão propõe e não abaixo.
Escrever uma biografia sobre mim, sobre o vizinho e lhe dando o meu nome. E para que servem os nomes?
Para mim tudo é bicho, tudo é gente e tudo é ausência.
A imensidão das coisas, como é linda.
Tênue linha que nos separa, diálogo infinito que descamba
para o nada. Estamos separados em nosso tempo. Todos.
Estamos aturdidos com tanta podridão e com a carne que resiste!
Nunca se aguardou tanto pela destruição. O apocalipse.
A vida fora da vida. Nunca o ser humano se alimentou tanto da própria carne. Que resiste, insiste. É a distância entre os homens que nos deixa tão similares.
Nilson Marques Jr.
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