Minhas memórias se misturam, confesso.
É a idade da saúde que se afasta.
De tanto viver, já não me sopra o desejo
pelo beijo noviço das carnes que já não possuo.
Pois bem. A gente se dilata na solidão
enjeitada e na debilidade etílica, eu
já não sei o que seria um e outro.
Poderia ter manifestado o amor
como coisa sólida que se lança
de uma janela à outra e sobe o clarão e apito.
Urgência! não tive.
O amor era distante e velho, hoje tem
câimbras enquanto repousa em minha sombra.
Tirei vida de corpo humano,
lutei em luta cabível de derrota e venci.
Vitória que separava lascas de minha alma
e foram distribuídas nos becos do meu coração.
Não por justiça, sim vingança.
Homem sem vingança digna deve se ater
ao silêncio dos músculos. Formidável textura de delírios,
vinho de minhas sensações,
loucura líquida de minha língua!
Nunca fui grande coisa.
Não conheço nenhum homem que o tenha sido,
exceto aqueles distantes, aqueles que se inventam,
sem parto nem pai, apenas virtudes.
Fui amado, e tem tempo.
Em toda confissão cabe o amor, mais que
sua ausência. Porque ausência do amor é
altruísmo que não tive. O tempo levou aos punhados
os propósitos das cores.
Ficou o amarelo dos dentes, que resistem.
Já não me incomodo de muita coisa
e tudo me provoca um grande tédio.
Até as gentes que se entrelaçam
são peças de coisas que contamos ao fim.
Em cada canto que estive pude me dar a
mim mesmo um novo nome e personalidade.
Puxei rede, montei à cavalo, dei esmolas,
comi a sopa da noite, visitei cabarés,
beijei a mão do clérigo
e
tudo isso se soma ao nada.
Talvez alguém se lembre e sinta fúria de mim.
Seria bom saber, mas o que sei senão
minhas memórias vagas e recriadas pra dentro de mim?
Eu, homem confuso, homem turvo que não se reconhece
ante a textura reflexiva e sente as veias se encontrar com
as tremidas dos nervos entre ossos.
A moça me trouxe o mingau.
Nunca sorri. O prato esmaltado queima meus dedos.
- Um dia ainda como essa mulher!
Nilson Marques Jr.
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