quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Porque há beleza

Porque há beleza quando
se aprende a domar a melancolia.

E por esses revezes que a noite não
oprime o luzir perdido de estrelas devoradas.

E é no cintilar das lembranças
que a alma voa: e tudo que flutua pousa.

Encontra repouso na beleza, não obstante
triste para quem a vive, mas noutro caminho

Resiste. E insiste. E que o Amor não evapore
a gota de tristeza que é minha

E que minha melancolia jamais inunde,
com esta gota, o riso dos meus dias.

Nilson Marques Jr.

Ontem

Ontem foi o dia
para as mães morrerem
não hoje, não amanhã.

Ontem foi o dia
para os pais sumirem
Ou
exigirem
a sepultura no ventre
da enxertada.
Mas não hoje. Não amanhã.

O presente é este beijo,
este pão quentinho e o
café cotidiano na garganta.

Sente-se um pouco
Aqui a morte das cores não
chegar.

Minha oração fique suspensa na órbita de tua retina, caríssimo leitor.

E os meninos corram e desabem nas ruas do meu
coração, atrás das pipas

Que valem tanto que voam
tanto! A noite bem que poderia ficar cheinha de pipas, e não haver necessidade de outro dia

E a moça linda dos olhos
de toda infância, sonhando
meus passos, permanecesse

Meio assim espalhada
Justamente
Raiando sobre minha alma.


Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Recife

Recife

Minha terra, há quanto tempo!...
Surpresa boa ainda te encontrar em mim,
Nessa disposição em confraternizar as coisas

concretas com as coisas que imagino.
Meus avós ainda pertencem a ti.
Minha infância perpetuamente tua

Me assombram a idade, por favor
não se relhe, mas não voltarei a isto.
Ainda não sai daquela passeata

em frevo do Galo da Madrugada
eu te juro que não nego a pátria
nordestina, mãe que me cuspiu!

Isto nem existe mãe, mas por gentileza
umedeça a lama do teu mangue no meu nome
que quase quebra de tão estranhos que ficamos.

Tantos ferros erguidos, tanto concreto e pré-moldados
para ficarmos mais parecidos com a frieza do outro lado.
Mas é cá na minha imaginação que teus maracatus

não cessam a procissão.
Não voltei, Recife
não por falta de saudade

Mas é que meus braços perderam seus
abraços. EU Fiquei com medo e no medo
me mantive, meu Recife, minha Recife.

Tive notícias tua outro dia
Nossos tubarões manobram bem nos
arrecifes. Eu estive lá, eu lembro do meu

pai e dos meus irmãos, eu estive lá!
Ando com uma vontade danada de chorar
como se choro resolvesse alguma coisa,

Como se esse sentimentalismo
dissolvesse a solidão que me aquece.
Não é isso... me acostumei a ter

sotaque diferente, e é isso que me agrada!
Quero te contar que nas minhas andanças
não me afastei muito, visse

Meus filhos tem o teu cheirinho,
e minha fé se comunica
com teus casarões.

Eu tento me explicar pra ti
nesse nosso conjugar verbal torto
que é corretíssimo entre nós

Eu tenho teu arco-íris no sangue,
te chamo de meu pai, as vezes minha mãe
te peregrino, as tuas ruas bonitas continuam em mim.


Nilson Marques Jr.

Dicotomia

As horas martelam sobre a carne sua sentença. O tempo concluiu-se na distancia, na esperança, no medo.

A nossa música é dedilhada em cordas de suspense, dedos que mentem, caso existam. O que salva o homem é essa manifestação interna da vida.

Todos estão isolados, aguardam a morte que não se apresenta.

Mas é na alma que o sangue não coagula.

Um filete que salve, Salve poesia comum!
Poesia de terra nas roupas e nos pés

E que conjuga a dicotomia daincerteza:
Seja o homem corpo seja o homem razão

teremos nós os sentidos atrelados ao que não está possível:
Caminham, e são os objetivos incognitas.

Árvores que não oferecem sombras nem frutos,
porque me ofereceria? O que tenho eu para receber

qualquer coisa da natureza fora-humana?
Em nada, absoluto. Meu corpo se dedica a desolação

para que minha alma cresça. As aves,
pássaros e passarinhos de todas as espécies

o que gorgeiam, o que se assimila em mim deles?
Eu que não encontro rima alguma para o que sou

Admiro todas as coisas que estão longe, por serem admiráveis!

Dor de toda dilatação, criação em parto,
fantasmas de meus mortos adquiridos!

Nenhum ente a oferecer abrigo
a chuva aduba os campos de cores maravilhosas,

rotas para naufrágos do peito, uni-vos!
Como gostaria de inverter o que pertence a carne

ao que pertence o peito. O homem interno excelso
e o homem externo mínimo então se encontrariam.

Eu sou milhões de sentidos contidos nas palavras que
repito, nas tardes que não estive com meus filhos, nas noites
pesadas e por serem pesadas se sobressaem

Eu tenho pés na alma e asas no corpo!
Invento tantas canções completas em ar-vão

Eu compro casacos nos brechós dos poetas apodrecidos,
é o sangue que não coagula, a artéria resiste!

Toda Ciência vã, toda Fé vã
todo Milagre vão, toda Construção vã
todo Parto vão, toda Palavra vã

Sinto que me aproximam cada vez mais da solidão que preciso.

TIC TIC TIC TIC TIC
TAC TIC TIC TAC TAC

Estalam os ossos das paredes
minha bandeira perfumada em pólvora
flamula a necessidade de incessantemente

fazer Das Solidões e Dos Pór-virem
o mais adequado meio de comunicação

entre eu e eu mesmo.


Nilson Marques JR.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Das confortáveis paredes do silêncio

Das confortáveis paredes do silêncio
o mundo que imagino se avoluma.
Tateio a brancura da ausência, existindo 
uma espessa camada de loucura.

Da natureza desnuda, minhas mãos 
alcançam a fadiga das retinas. 
Uma canção é assoprada pra dentro de minha boca
um hálito de suspense e frio, devora as palavras.

São desatinos e desafios,
rachaduras e fechaduras no riso lembrado
e um soco esperado, que manche de cor viva
o equilíbrio pesaroso dessa ordem.

Nilson Marques Jr.

Verso Inútil

Mais um verso inútil sobre minha alma. 
Que vagueia intocável entre corpos secretos,
flores feridas.

Mais um lamento engessado de saudade. 
Meu verso é minha mãe e é meu pai. 
Por onde confesso pequenas belezas possíveis: uma declaração de amor, 
uma lembrança de infância, uma espera saciada.

É por onde me salvo sem palavra alguma meu verso me denuncia. 
O vejo em concreto armado 
e nos artifícios da solidão.

Nilson Marques Jr.

Saudosismo Niilista

Sonhos,
Logo
Persisto.

Penso,
Portanto
Recrio.

Questiono
Pois
Equilibro.

Nilson Marques jr.