sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Poema em folha branco & preto

A minha inspiração é secreta de tão aberta que é
Não preciso de muito brilho para compreender as cores
Nem de tantas pernas para saber o caminho

Parto do princípio das vozes dos cheiros e dos anos
Se ouço ou leio um nome não preciso de canção de amor
pois em dias de chuva há sempre um sol disposto a aquecer as carnes

Vejo os homens indo e vindo, toda humanidade peregrina em mim
Sinto, por pouco, insuportável vontade de me explicar
Falar de mim como homem, bicho alucinado ante a falida razão tátil

Escrevo o nome dela como se ainda fosse imaturo
mas as minhas rugas me permitem essa liberdade
Desenho o nome dela, rascunho letra por letra com pena de passarinho

que pousou, cantou e sumiu sem que mais ninguém ouvisse
Desaprendo cada dia um pouco mais de mim
Vou me entendendo em desejos, conquistas e sabores

Começou um barulho bom lá na rua.
No meu coração muitas ruas se encontram e se perdem sem saída
Faltou luz nas casas e as crianças nem percebem que compoem uma sinfonia.



Nilson Marques jr.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Encontro

   Era realmente um homem feio. Traços másculos voz grave e firme, sujeito a quem o vinham na expectativa de violência. Poucos o conheciam, e era conhecido como O Feio. Ao espelho da memória, condenado por dedos em riste e zombarias companheiras desde a infância, o faziam entender e achar graciosa a falta de beleza.

Dois momentos de sua vida influenciavam sua mente de homem: esse homem ora exilado de afeto ora desejado expositiva e ocultamente contrastavam a realidade que ele mesmo havia se habituado quando algo assim ocorria não se via ele, mas um outro como se ele fosse um adereço para o curso do desejo.

Nesta outra realidade ele conseguia se auto analisar, sem pesares. Esperava atentamente ver o copo ser erguido por ele mesmo na padaria em frente de onde se encontrava agora. Era um café quente, quase sentia o gosto e o dedo arder pelo calor do copo. Não haviam dúvidas de que aquele homem comum, do outro lado, era ele mesmo. Pessoas sentavam ao lado, participando de uma refeição sem o menor entendimento entre si, como se todos fossem objetos incomunicáveis. Certa aflição tomou conta de seus sentidos, poderia ir até lá e iniciar um diálogo, porém com que objetivo? O outro entenderia sua aproximação e será que ele também o reconheceria? Eram questionamentos rodopiando em sua mente fervilhante. Outras circunstâncias o impediam de ir até lá, essas ele não sabia das nomes, era um homem, comum cidadão, sem nada de grande interesse.

O suor frio desenhava sua testa e as mãos tremiam, era espantoso ver-se noutro e em aspectos tão diferente:
"- Nem gosto de café", pensou. Logo terminado o homem saiu, e caminhou por duas longas ruas, completamento afastado dos demais transeuntes, ele foi até certo conjunto empresarial entrou e rapidamente saiu. Rapidamente não significa que foi imediato, cerca de duas horas depois, mas a sensação era de poucos minutos. O Feio tentava despistar seu interesse até por motivo machista pois sentia que deveria estar ocupado nalguma mulher e não num homem mesmo que esse homem fosse ele mesmo perambulando por aí. e ele sabia bem o que é não ser buscado pois tudo o que não salta ao questionamento alheio se torna desprezível e era assim que se sentia.

Já eram horas e horas envolvidas em ligações, encontros, quase atropelo, mais comida de rua, abraços e um encontro marcado. "- Como poderia eu ser ele?", Voltava a se questionar, pessoas tão diferentes e apenas ele acreditava nisso pois o outro nem mesmo lhe notou durante todo o dia. Ele se sentiu abatido e confuso, mais ainda porque sua feiura era atrativo de olhares, mas agora ele simplesmente sumiu.

Dias e dias passavam corridos e constantes e aquele homem mostrou uma vida agitada e convidativa. Depois de quase uma semana Feio decidiu ir até ele. Sua vontade era de esmurrar o homem e em outros momentos de falar sobre ele mesmo para que o homem aceitasse que eram a mesma pessoa.

O homem estava em todos os lugares, ele não conseguia se libertar disso. Pensou em morte e se era possível alguém ser tão feliz quanto ele era naquele homem. Viu que era amado, e que o seu apartamento não era solitário, e quando olhava para si, Feio fazia grande esforço para lembrar o endereço de sua casa.
Chegou ao ponto onde não poderia passar dali. Era hora do encontro. Noite de sexta, comecinho de noite, tempo perfeito. Feio o aguardou em frente a guarita e nada do homem descer. As luzes foram acesas. Mesmo sem estar lá Feio sabia quais foram acesas e o que o homem estava fazendo. Isso foi deixando ele nervoso, mais ainda. Nada do homem descer, e Feio sabia que ele não desceria. Talvez por ter tamanha certeza disso é que ele decidiu fazer o encontro nesse dia e tempo. O frio da noite foi aumentando e o cansaço também. Deu umas voltas para não chamar a atenção, o que não era necessário pois o Feio não era notado ou esperado, segundo o que ele mesmo pensava de si, como o Feio.


Certa melancolia e angústia o envolveu de maneira tão assustadora que se viu apavorado e se sentindo sem saída. O homem, isto é, ele mesmo, no apartamento, trancou todas as portas, desligou celulares interfone e telefone. Apenas as luzes o representavam. Os movimentos cessaram. Feio ficou preocupado, aterrorizado! E tamanho foi o pavor que ele caiu sem forças sendo rapidamente socorrido por um morador que iria iniciar uma caminhada. O rapaz se mostrou muito atencioso, e lhe deu um pouco da água que levava, quase forçando o Feio a beber. O bom samaritano notou os olhos e nariz vermelhos e questionando algum número de amigo ou familiar dele para um atendimento hospitalar. O que não conseguiu, feio não tinha ninguém para conversar senão ele mesmo que continuava trancado no apartamento. Era muito para um peito de homem suportar, mesmo sendo o peito do Feio não conseguiria suportar as dores de ser duas vezes ele mesmo.
Seus olhos embaçados viram o samaritano o erguer e desejar uma conversa, ele disse que o estava vendo desde cedo e estava curioso em conhecê-lo. Nesse momento um silêncio pesou sobre a noite, nenhuma sirene ou grito ou qualquer som foi percebido. Um abraço selou o agradecimento e o sentimento de dever cumprido. Cabeça baixa e ainda zonzo Feio foi caminhando e algumas lembranças que não eram suas foram aparecendo a sua mente. Certo assalto e medo e dois tiros e uma mulher morta. Ele parou olhou fixamente nos olhos do seu "samaritano" e era como se ele esperasse por esse olhar do Feio. Feio entendeu muito mais do que gostaria e voltando para sua despedida a cabeça não estava mais voltada para o chão. Dobrou a esquina e as luzes do apartamento foram apagadas.

Nilson Marques Jr.     



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

* Espelho perfeito

O mundo está ficando longo demasiadamente.
Cheio de verdades negadas e angústias.
Posso conhecer tudo sem saber o cheiro
das coisas, se é que existe gente além das coisas.

Eu deveria ter medo. Contabilizo o pouco
do que me sobra de lembranças esmigalhadas; poderia
ao menos me dispor a estar, como se
houvesse fé nisto, mas não há.

Estou estranho como mandacaru em centro urbano.
E livre feito pássaro levado em gaiola.
Entender que o mundo chegou ao cúmulo das
não conquistas, mãos sem mãos conhecidas, risos caricaturáveis

Saber que estou sem estar presente
ou cidadão pária de terras tão impossivelmente
iguais a mim, é reconhecer a distancia de si mesmo.
Não aceito perder a rudeza de ser gente,

a parte de todas as janelas quais espreito
sobre todas as camas em que me deito
eu o poeta, o Nilson, a fera humana, nordestino
na saliva e nas retinas, me desencontro do mundo.

Absorvo a poeira dos casarões, o suor dos ônibus,
sargaços das praias, o piche do asfalto, o verde do ingazeiro,
o amarelado das fotografias, embrenhado no Quando para me comunicar
sendo a linguagem explícita em contato com gente: Gente!

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Carta ao Amor distante

Neste últimos tempos

tenho te amado em silêncio
tenho calado os sentidos
tenho pouco dormido.

Nestes meses anteriores
muitos foram os dissabores
e outros tantos me tenho esquecido.

Nestas outras horas que se
encerram arde a carne
destas palavras simples

por te amar, eu feita de
silvos noturnos, desejos absurdos,
te sinto atravessado, prendo essa marca

ao meu corpo inundado já
de tanta espera ganha, ferida de gozo,
desarmada, prenhe em delírio.

Nilson Marques Jr.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sonhador

Aquele que sonha tem em si mesmo
a solidão e a dor da ação.
E na saída enquanto se trabalha

Essa força que é sua
o Sonhador passa o dia inteiro
na cruenta realidade

De não poder sonhar.
Sonhe meu amigo
Só a dor de ser

Não basta, ao som
desmembrado
do caule que se desfolha

e fica feia a árvore pra noutro
dia florir sendo a mesma árvore, portanto
trabalhe, moço!

Deixe o sol descer raiando
e clareando o riso não entendido
e vá se rindo que a boca é cais

é porto inseguro, estando torto
as naus imagináveis de tantos lugares
que só o teu riso alcança.

Caminhe para onde se pode amar
inventando outra solidão
fugidia das cores vermelhas

e alvas e claras retiradas de olhos
sorridentes, caminhos atrevidos
onde tens o norte do saveiro

singrando teu mar, sangrando mais
vivendo só em tantos ao som
do sonho, sonhar-te e ter-te e partir!

Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Poética IV

Existe mais poeta que poesia.
Quem a expõe não é só o escritor
daquilo que se sente e foi escrito.

A poesia está dentro como se escondesse
cavernas na própria caverna que a prende.
Sintam cada verso como quem senta-se

para ouvir a voz velha da infância,
despejem cântaros de sensações
sobre o delírio daquilo que salta

peito a dentro sem vontade de voltar,
e o cheiro de carambolas que não passa
o leito do gozo desarrumado,

a pressa dos que não tem horas
atadas ao mesmo desejo
descompassado em si mesmo.

Cada verso é um poema dentro do poema.
É semelhante ao amor que ora se esquece
e torna-se a amar, para amar de novo.

A poesia está na boca que mastiga
palavras duras e sopra a saudade de um dia.
um dia todo de sol e todo de chuva para quem o busca.

Que arda a pele da razão untada a sensibilidade
tranquila nos pelos arrepiados da mulher amada
porque poesia é a autobiografia de quem a sente.

Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Busca na fuga

O poeta não deveria saber de onde vem a poesia.
Essas coisas são perigosas demais...
É um sabor de amargo bom de se ter no céu do tempo

E em cada tempo uma flor nova de espanto brota
mas na verdade deveria e haveria de se ter é silêncio e água.
Associo sempre as coisas simples a água que brota da carne da vida

E Jesus continua a estender a mão, oferecendo-a, eu tenho medo de beber
Essas coisas são perigosas demais...
Olha, os homens não deveriam achar beleza nos versos

Melhor que fossem comuns e tão e tantos que nem se chamassem a atenção
mas esse ofício é de quem sente, e expele e é parte do que foi exposto
o carnegão de coisas doídas e a rima é sangue escorrendo.

A poesia bem que poderia ser lida sem se saber que é poesia
como quem ouve o filho rir no fundo da casa correndo atrás da galinha
Existe um desespero na fuga do bicho e o menino apenas se ri e está descalço

Os pés de quem ama sempre estarão descalços
O peito de quem tem verso estará sempre disposto, sempre aberto
Isso não é certo, não deveria ser assim, mas se não fosse desta forma não existira o poeta.

Um dia quando as coisas forem tão possíveis quanto uma galinha
perseguida pelo menino eu poderei perder essa aflição a poesia.
O verso sem palavra alguma, todo agitado e colorido, sem revolta.

Certo dia (eu não poderia esquecer de versejar isso) a galinha
cansada de tanta fuga se danou a querer voar, eu acreditava que era voo
ela poderia estar fazendo qualquer coisa até tentando voar

Que seja! O dia era claro como o brilho dos olhos
de quem se sente saudade, e a poesia, abrindo asas, carregou
o meu menino eu fiquei olhando, olhando cansei eu de olhar e voltei a ser menino.

Nilson Marques Jr.