terça-feira, 24 de julho de 2012

Poema de luares e Raiares

O sol da meia noite lança raios de teus olhos,
olhar ensolarado sob a neblina de uma vida desmedida.

Na sombra clara, da clara evidência de teus medos
uma rosa muda brota de tua voz.

Armada de espinhos na alva do dia pétalas murcham
cobrindo o rastro de onde viestes, moça dos olhos ensolarados

e me contas tantas histórias de dentro de ti, e pareces imune a esta
coisificação do Amor, para não amar e continuar descrente do

calor que cobre as formas e as bocas que te denunciam
Então dorme menina, dorme que teu sono leve sustenta a vida.

Nilson Marques Jr.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Poema de perdição

É o fim do verso, é o tempo desmedido
a covardia embrulhada e as malas do foragido.
A última história a ser contada, e outras tantas
esquecidas. A tatuagem apagada, e a noite mal dormida.

... Acúmulos de horas vãs, e a espera do tudo que há no mundo
o estampido no quarto de luxo e a puta satisfeita por ser puta.
A boca do delírio amordaçada pela ansiedade, e a criança adormecida
são os olhos claros de cegueira, e a escuridão dos sentidos à mostra.

O jornal velho na parede de recordação e a chuva ultrapassando
telhas. São assombros e assobios, são pés quebrados e sonhos espalhados.
São esses gestos descontrolados, e o soco a ferir lábios.
São as crianças na possibilidade de nudez e o idoso espancado,
sol repousando sobre janelas e o frio da comunicação.
É a tela inacabada e o estúpro concentido, a boca da moça
que brota um filete de riso e o afogado da enchente.
...
Essas coisas do dia a dia e o olhar sobre a natureza morta do que se vê
É o fim do verso, meu amigo. É o fim do verso. A bela música cantada
em língua morta, são os soldados deserdados e a peste bubónica no Vaticano.
Essa vontade de vomitar o que o outro comeu, esse cheiro bom de carne morta
no prato da miséria, são esses passarinhos pipilando em minúsculas gaiolas

É essa hora inútil, esses bêbados, esses marujos flamulando minhas rimas pobres
A lembrança da sala de aula, e o filho que foi partido ao meio. É o dia em da troca
da beleza de um poema por uma dose de cicuta sorvida enquanto Narciso se masturba no banheiro do bar. É a mutilação da luz, e trevas e trevas e trevas
a romper o sono. São as pequenas coisas a tilintar na pele.

Nas rugas do sentimento a poesia se esconde, malígna beleza!
É o indgente a ser dissecado, o mesmo nome feminino dado a coisas belas,
o Esquecimento, a Náusea e a Fome.

Nilson Marques Jr.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O poeta e a Poesia se comunicam


Haverá o dia em que meus versos não terão beleza,
pois a forma já fora. Nem tanto me entristece a rude falta
de serventia sua beleza, pois que há beleza em tudo!
.
E essa minha maneira inútil de expressão
...
será só mais uma em um milhão, e todas sepultadas
falarão de coisas esquecidas, como a lesma que escorrega
sua língua na parede fria.
.
Ela vai subindo, a segue meu olhar sem propósito,
assumo a culpa de me dedicar a este ofício tolo
e são mil rostos que seu rastro desenha
ali sobre a estrutura fria.
.
Quando ela desce faz a mecha que eu vi
no primeiro dia que me dispus ao etéreo
ato de amar. E que não cesse o lânguido passeio,- Minha alma se comunica
contigo, bicho que marcha, desalmada!
.
Estás intacta a todos os acontecimentos
até que alguém sinta nojo de ti, por seres quem és
e te esmague ou te esfole com sal
e morrerás como tudo nessa vida
.
Mas por enquanto, estarei eu e tu
na debilidade de nossas funções
e haverá o dia em que nem eu nem tu seremos
lembrados, e ficará a nossa lavra esquecida.
.
E ao lume de teu rastro
nos encontraremos, quem sabe, nos muros
ainda firmes desta casa onde,
sem saber, na lúdica imaginação, fizemos arte.
Nilson Marques Jr.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Poética Cotidiana IV

Meus poemas é a comunicação direta
entre o que há de vivo para o morto.
Nesse trânsito Eu-morto sinto a vivacidade
das coisas.

Eu, coisificado em transmissor, nada sinto
por não poder sentir e nessa inércia minha
fauna interna me consola.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poema em negrito

Existem noites diferentes como gente.
Eu conheço tanta noite e tanta gente
que tem horas que emendo, os nomes

Digo a uma estrela: Bom dia
e da moça conto crateras.
Um dia, uma noite diferente de todas as outras me inundou
eu sou cheio de noite e todas as noites são sem fim.

Meus olhos escureceram sem esperança
e a minha alma vagueia sem penar
contornando a madrugada vadia
que me chupa as forças e as cores
feito um buraco negro pra imaginação de criança

Uma noite fria de vozes... 
e que coração há no meu peito de homem
quando nem peito sinto, e a neve conserva as lembranças
quando nada impedia uma boa dança
e as noites ficavam paradas, iluminando os nossos pés.

Nilson Marques Jr.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Subterrâneo

Até onde pode ir a alma humana?
As cores vão se reunindo na ribanceira de minha alma
como se no suicídio coletivo tudo pudesse voltar

E ao invés de descer subir, e no perder haver ganho
e a alma humana suportando toda a carga da verdade
As cores da partida. As cores da chegada

As cores do gozo, As cores da decepção de quem decepciona
As cores da página arrancada As cores do amor intragável
são todas elas minhas, e se espelham na ribanceira de minha alma.

Uma voz não sei de quem, me chama e não é o meu nome que se me dá
são nomes de todos os mendigos, de todos esquecidos de si mesmo, é assim que me chama
e a voz é minha, no subterrâneo de minha razão, impura e inerte, é minha a voz que me apavora.

Nilson Marques Jr.

Bem cedinho (Incelença)

Bem cedinho um Corvo inventou de fazer ninho
roubando meus trapo, se escondeu lá pra dentro do espinhento faveleiro
vizinho da casaca de couro, só pra espreitar meu canto

E quando não aguento mais cantar, garganta ferida, ele fica em meu lugar
cantando as coisas de meus olhos que não choram, dos olhos claros que de mim se apartaram
pra todo dia me espiar, como se eu não fizesse o mesmo, nenhuma sabiá ou codornizes

nenhum bem-te-vi, nenhum caboclinho, nenhum azulão, nenhum papa-capim
sabe de ti, só o corvo agoureiro, das bandas de onde ela se foi, comunga
com meu silêncio cantado, também espreitado pela casaca de couro

Que me engana de manhã, anunciando a volta dos olhos que nem em foto
ousei guardar, me permito enganar pra de tardinha poder cantar
os versos que o corvo, na cumeeira das lembranças, não deixa faltar.

Nilson Marques Jr.