quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ferida Exposta

Sai do interior

Minha casa ficava na roça
da cidade mais enroscada
desse país

Nem sei o tamanho dele
mais descobri minhas ancas largas e
Minha cor mulata brejeira
sem medo me fiz forasteira

Na cidade maior, fui a casa de dona Albertina
Mulher muito fina de traços elegantes
unhas bem grandes ela tinha
me recebeu com honraria

Por ser novinha cheirando a terra vermelha
me deu banho me depilou os pelos
me levou ao seu grande amigo bigodudo
Ali soube que era meu futuro

Areganhar as pernas noite e dia
em troca de uma mentirosa alforia
Perfumes mimos e charuto
Era essa a minha rotina

Só pensava em painho -Ai de mim!
Soubesse ter ele uma filha rameira
gostava se me chamassem de meretriz
Me sentia tal Leopoldina a Imperatriz

Uma senhora citada entre galhovas
Mas imagino que ela não carregar nas pernas
As marcas dos dentes pustiços
Duns brancos fedidos

Que me encheram o bucho
pari mais que
a cachorra do terreiro
meus minino correm esse mundo inteiro
Mas eu sei os nome deles todos, até o do Turco

Que um dia disse me amar
Nunca me tiraram essa senzala
trataram mesmo foi me amarrar
Ferida velha e desdentada

Hoje tomo conta dessa casa
Meus Barões já não nos vizita
E essa ferida que não cicatriza
por onde passaram meu choro

Serve pra mim como consolo
Porque assim me sinto forte 
Mesmo sendo quenga vindo do norte
Posso sangrar mas não serei serva da morte.
Nilson Marques Jr.

Nenhum comentário:

Postar um comentário