quinta-feira, 26 de maio de 2011

Retalho de coisas

O poeta foi saudado nas jornais

Quando ainda se lia poesia
Em cartões de namorados
Seus versos certeiros apoiavam amores
Indissolúveis e os eram assim por mérito do poeta
Amor do poeta atado a feixe ocultos nas cicatrizes

Olhos gotejam delicadeza
a profundidade, em tinta silábica
No Reino das Palavras o poeta usa coroa
Passeia cavalgando cavalos mágicos, batem a ferradura
No asfalto desentoando uma sinfonia a toa.

Todos vão ao coreto ver o poeta
Lançar pedacinhos de sonetos pros pombos destrambelhados
Que quando voam saciados pintam o telhado dos homens sisudos.

No centésimo aniversário de minha vida
O poeta veio sem ser convidado e era o mais esperado
E eu fui o Criado Mudo delatando segredos da vizinha sem sapato
No pé esquerdo e as peripécias do senhor barrigudo e diabetico.
Noutro quarto o poeta lambe seios satisfeito.

Não sei dizer se antes ou depois disso
O poeta foi encontrado morto e seu registro dizia ter mais de mil
amores selecionados, um charuto e um trago de cachaça da boa.

O poeta foi carregado pelo pênis até a beirada do mar triste, sem albatrozes.
No percurso, de braços abertos, olhos ressecados
Sílabas desencontradas escorriam girando girando de seus cabelos.

Ninguém viu quando o poeta correu aos pés da Catedral
Está falando de amores novos, pleonasmos.
Abraçado ao último gole de rimas do dia, bateu a poeira sobre outros versos
E canta até agora acarinhando os velhos pombos, assistindo ao seu corpo ser esquartejado. 



Nilson Marques Jr

Nenhum comentário:

Postar um comentário